Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Jazz

Geri Allen (junho de 1957-junho de 2017)

Luiz Orlando Carneiro

“Outra mulher a impor seu nome entre os mais respeitados e requisitados pianistas dos anos 80 é Geri Allen. Nascida em 1957, em Pontiac, Michigan, portanto na mesma cidade dos irmãos Jones – o pianista Hank, o trompetista Thad e o baterista Elvin, estrelas de primeira grandeza no firmamento do jazz moderno – Allen foi criada na vizinha Detroit, o jazzístico burgo de Lucky Thompson, Donald Byrd, Barry Harris, Tommy Flanagan, Kenny Burrell e Milt Jackson”.

A citação é do capítulo dedicado à pianista do meu livro Elas Também Tocam Jazz (Jorge Zahar Editor, 1989). Naquela época, com pouco mais de 30 anos, ela já tinha conquistado a crítica especializada por sua atuação em quatro álbuns – três como principal solista e o quarto (Gallery, Gramavision, 1986) ao lado do vanguardista Oliver Lake, um dos fundadores do World Saxophone Quartet (WSQ).

Geri Allen morreu de câncer, neste último 27 de junho. Seu último registro foi o CD Perfection (Motéma), com o “Power Trio” do extraordinário saxofonista David Murray (Terri Lyne Carrington na bateria), que foi selecionado e comentado nesta coluna (2/7/2016). Compositora e educadora de renome, ela ocupava, nos últimos anos, o cargo de diretora de JazzStudies da Universidade de Pittsburgh.

Estrela do piano jazzístico morreu de câncer no último dia 27
Estrela do piano jazzístico morreu de câncer no último dia 27

Como pianista, não escondia a influência do legado de Thelonious Monk, McCoy Tyner, Don Pullen e Cecil Taylor, todos eles – cada um, a seu modo – mestres da improvisação fundada mais no impacto de blocos rítmico-melódicos do que no desenvolvimento rítmico-harmônico mais linear dos acordes de base.

Do necrológio que Giovanni Russonello escreveu para o New York Times, vale transcrever:

“Talvez mais do que em qualquer outro pianista, o estilo de Allen – harmonicamente rebelde e ritmicamente complexo, mas também fluente – formou uma ponte entre o período pacífico do jazz da metade do século passado e o seu difuso presente.

Ela conseguiu isto mantendo constantes: uma abordagem prospectiva do piano, que usava para guiar e estimular seus companheiros; uma habilidade de variar de estilos sem deturpar seu próprio som; a convicção de que o jazz devia sempre interagir com as formas de arte afins da tradição afro-americana”.

Registre-se também a colaboração íntima de Geri Allen com outras brilhantes estrelas do jazz, como Betty Carter (1930-1998), Ornette Coleman (1930-2015) e Charles Lloyd. Com a maior de todas as vocalistas bop ela gravou Feed the Fire (Verve, 1993), ao vivo, no Royal Festival Hall de Londres; com o founding father do free jazz os CDs Hidden Man e Three Women (Verve, 1996); com o saxofonista Lloyd dois álbuns sublimes para a ECM: Lift Every Voice (2002) e Jumping the Creek (2004).

(Vídeo de 2013 do trio de Geri Allen com Terri Lyne Carrington e a baixista-vocalista Esperanza Spalding em http://geriallen.com/)

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