Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Jazz

Charles Lloyd lança novo álbum gravado ao vivo

Luiz Orlando Carneiro

Lá se vão 50 anos, ainda nos meus twenties, ouvi em Nova York, pela primeira vez ao vivo, o hipnótico sax tenor de Charles Lloyd. Ele era então o arquétipo do jazzman hippie nas noites do Village. E chefiava aquele quarteto com um irrequieto pianista de 21 anos chamado Keith Jarrett que “estourou” com o LP Forest Flower (Atlantic), gravado em 1966, no Festival de Monterey.

Em 2015, já dono de um acervo extraordinário de 15 títulos editados pela ECM, Lloyd foi sagrado jazz master pela National Endowement of Arts (NEA). Naquele mesmo ano, de contrato novo com a etiqueta Blue Note, o saxofonista-flautista-compositor lançou Wild Man Dance – uma suíte de seis movimentos interpretada basicamente pelo seu quarteto, e que integrou as listas dos 10 Top CDs da revistaJazzTimes e na National Public Radio (NPR).

Agora, neste mês, a Blue Note aproveitou o 10º aniversário do chamado novo quarteto do mestre (Jason Moran, piano; Reuben Rogers, baixo; Eric Harland, bateria) para distribuir o álbum Passin' Thru – uma seleção de seis longas faixas registradas ao vivo, em julho do ano passado, no Lensic Performing Arts de Santa Fé, New Mexico, mais uma, Dream weaver (17m45), gravada no mês anterior no Festival de Montreux, na Suíça.

'Passin' Thru' comemora 10 anos do "new quartet" do saxofonista
'Passin' Thru' comemora 10 anos do "new quartet" do saxofonista

Nessas apresentações ao vivo, o septuagenário jazzman mostra-se no ápice de sua criatividade, em constante e viva interação com os seus parceiros, que só recentemente ingressaram na faixa etária dos 40 anos. Apesar do respeito devido ao líder, em face do gap etário, Moran, Rogers e Harland – que são notáveis instrumentistas - não atuam simplesmente como acólitos nas fascinantes celebrações musicais. Ou seja, fazem com que o todo seja maior do que a soma das partes.

A faixa-título do disco (7m20) tem uma introdução do baixo de Rogers de um minuto e meio, e só então o baterista, o pianista e o saxofonista se unem numa festiva confabulação, de crescente acentuação rítmica, em torno do tema-mantra que Lloyd gravou com o inesquecível quinteto do baterista Chico Hamilton em 1962.

Todas as composições do novo álbum são do saxofonista. A já citada Dream weaver deu título ao LP de Lloyd para a Atlantic de 1966, com Keith Jarrett, Jack DeJohnette (bateria) e Cecil McBee (baixo). Ruminations (11m55) e Nu blues (11m50) mantêm a vibração – na base do “toma lá, dá cá” - do quarteto comandado pelo jazz master. A balada How can I tell you (9m45) vem a seguir, e logo depoisTagore on the Delta (7m45), com o líder na flauta. A faixa final, Shiva prayer (8m25), é em feitio de meditação.

Charles Lloyd assim explicou a escolha de temas do passado para um “reexame”: “Passin' thru e Dream weaver são algumas das minhas crianças. Elas saíram de casa e retornaram. Eu saí de casa, e voltei. Quando nos reencontramos, achamos que tínhamos mais histórias para contar. Eu e elas amadurecemos. E agora tenho muito mais experiência do que tinha quando era um jovem idealista”.

(A faixa-título pode ser ouvida em: http://downbeat.com/news/detail/preview-charles-lloyds-luminous-new-blue-note-album)

Tags: artigo, coluna, jazz, jb, luiz, orlando

Compartilhe: