Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Jazz

Par de ases: Bill Frisell e Thomas Morgan

Luiz Orlando Carneiro

Há mais de duas décadas o guitarrista Bill Frisell, 66 anos, lidera as listas dos melhores jazzmen na sua especialidade - incluindo os critics polls da revista Downbeat - à frente de outros também consagrados colegas de ofício como John Scofield, Pat Metheny e Pat Martino.

O respeitado crítico Gary Giddins (The New YorkerJazzTimes), ao escrever sobre Frisell quando do lançamento do álbum duplo History, Miystery (Nonesuch, 2008), ressaltou o caráter sempre “destemido” do guitarrista, “cujas variadas especulações o levaram às chamadas free-forms, a elaborações sinfônicas, ao rock, à música country, à Americana, e até a acompanhamentos para filmes mudos de Buster Keaton”. Seus partners foram ou têm sido músicos tão diferentes como Paul Bley, Paul Motian, John Zorn, Willie Nelson, Charles Lloyd e Ron Carter.

Guitarrista e baixista tocam ao vivo em 'Small Town'
Guitarrista e baixista tocam ao vivo em 'Small Town'

A estética mais minimalista de Bill Frisell, de extrema sofisticação harmônica (ele foi aluno do venerado Jim Hall), está muito bem representada na maioria das duas dezenas de discos que gravou para as etiquetas ECM e Nonesuch, como líder ou sideman. Contudo, na condição de líder propriamente dito, há muito tempo o admirável guitarrista não aparecia no requintado menu da ECM, concebido, até hoje, pelo seu chef e fundador Manfred Eicher.

A lacuna foi sanada agora em maio com a edição do álbum Small Town, com registros da apresentação de Frisell no Village Vanguard – o mais “sagrado” clube de jazz de Nova York - durante uma semana de março do ano passado, em duo com o contrabaixista Thomas Morgan. Este - apesar de ter a metade da idade do mestre das seis cordas – tem no seu currículo associações relevantes com o trompetista Tomasz Stanko, o saxofonista Steve Coleman e o pianista Craig Taborn.

O novo CD da ECM contém oito temas, explorados pelo par de ases em takes que podem passar dos 10 minutos, como na faixa de abertura,It should have hapenned a long time ago (11m05), do saudoso baterista-compositor Paul Motian, e em de Poet/Pearl (12m05), composição assinada por Frisell e Morgan.

O clima e a poética musical dominantes naquelas noites do Village Vanguard derivam substancialmente de explorações sonoras impressionistas, e assim não é por acaso que o virtuose da guitarra – como anota John Kelman (All About Jazz) – dá preferência a uma Gibson semiacústica em vez de uma das suas Fender “solid body”, sempre propensas a “efeitos especiais”

A temática dos duetos é bem variada. Frisell apresenta dois originais bem composicionais: a faixa-título (8m55) e Song for Andrew No. 1(9m35). A dupla decola num irresistível vôo a partir de Subconscious Lee (7m30), de Lee Konitz, obra referencial do new bop do fim da década de 1940. Passa por What a party (6m40), do repertório rhythm & blues de Fats Domino. Visita o folclore americano em Wild flower (5m05). E encerra o repertório com o tema Goldfinger (7m), daquele filme de James Bond.

(A faixa Small town pode ser ouvida em: www.jazzmusicarchives.com/mp3/bill-frisell/8297)

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