Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Jazz

Manuel Valera volta a brilhar em 'The Seasons'

Luiz Orlando Carneiro

Como sabem os jazzófilos mais antenados, a Ilha de Cuba produz, além de afamados charutos e litros de rum, pianistas excepcionais que não devem ser rotulados, apenas, como especialistas no chamado Afro-Cuban jazz. Os exemplos mais eloquentes são o já canonizado Bebo Valdés (1918-2013) e o seu filho Chucho – detentor de oito grammies, doutor honorário pelo Berklee College of Music, e ainda bem ativo, mundo afora, aos 75 anos.

Mas além dos mestres Valdés, gozam de justo prestígio, no planeta jazz, pianistas do quilate de Gonzalo Rubalcaba, Omar Soza, Aruán Ortiz, Roberto Fonseca, Fabián Almazan, Alfredo Rodriguez e Manuel Valera - todos eles radicados nos Estados Unidos, com discografias já significativas, e agendas cheias de compromissos em clubes e festivais.

Novo álbum em trio é o 13º do pianista cubano radicado em NY
Novo álbum em trio é o 13º do pianista cubano radicado em NY

Manuel Valera, 36 anos - o terceiro mais jovem dos acima citados – já tem no seu currículo 12 álbuns como líder, com destaque especial para Self Portrait (Mavo Records, 2014), a sós com um Steinway restaurado de 1918. Os seus discos anteriores foram feitos à frente do New Cuban Express, um sexteto de cubop(Cuban bebop) que foi indicado para o Grammy em 2012.

O novo registro de Valera, também no selo Mavo, tem como título The Seasons, que é uma suíte de mais de 20 minutos, dividida em quatro partes, cada uma referente às estações do ano. Não se trata contudo – como pode parecer – de uma “jazzificação”, no formato trio, da temática ou do barroquismo de As Quatro Estações, a obra mais famosa do grande Vivaldi (1678-1741).

O pianista-líder e seus acólitos (Hans Glaswischnig, baixo; E.J. Strickland, bateria) partem de melodias novas e, em interação constante, improvisam festivamente em Spring (5m55) e Summer (8m20) - esta última contendo um longo solo do baixista. Fall (5m50) e Winter (3m35) têm clima percussivo menos “quente”, mas nem por isso menos atraente em termos harmônicos. (21)

A suíte que dá título ao recém-lançado álbum de Valera ocupa as faixas de 6 a 9. Mas os outros temas da setlist são bem variados, mostrando, ao mesmo tempo, que o pianista cubano-novaiorquino absorveu as lições rítmico-harmônicas de McCoy Tyner, Chick Corea e Brad Mehldau. E que – quando o momento é oportuno – não se esquece da elegância e do toucher típicos do fraseado de Bill Evans.

Os hard chords em sucessão, esquentados pela notável seção rítmica, são marcantes nas duas primeiras faixas do repertório da sessão: Opening (5m10) e In the eye of the beholder (6m35). A temperatura do trio fica mais amena nas interpretações do bolero Tres Palabras (6m) e de In my life (6.05), de John Lennon. Mas a peça desenvolvida com harmonias mais intrincadas e mais inesperadas por Valera e seus companheiros, sempre em estreita colaboração, é a conhecidíssima What is this thing called love (7m), do imortal Cole Porter.

“Com um material bem escolhido, habilmente executado, esta é uma gravação destinada a ajudar Valera de se livrar do rótulo 'Latin jazz'. E a considerá-lo o que realmente é: um pianista extremamente talentoso e imaginativo. E é o que basta” - escreveu Troy Dostert, ao comentar The Seasons no site All About Jazz

(A faixa de abertura, Opening, pode ser ouvida em: http://www.manuelvalera.com/copy-of-home)

Tags: Artigo, JB, coluna, jazz, luiz, orlando

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