Jornal do Brasil

Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Jazz

O New York Quartet de Tomasz Stanko

December Avenue é o novo CD do notável trompetista polonês 

Luiz Orlando Carneiro

Tomasz Stanko, hoje com 74 anos, começou a ser conhecido como o “o Miles Davis polonês” a partir do álbum Balladyna, lançado pela ECM em 1975. Na mesma sofisticada etiqueta de Manfred Eicher, o admirável jazzman gravou mais de uma dezena de álbuns que consolidaram a sua fama de poeta maior do trompete, no mesmo nível técnico e inventivo de Tom Harrell, do italiano Enrico Rava e do saudoso Kenny Wheeler (1930-2014).

Há alguns anos, Stanko montou apartamento em Nova York, e formou um quarteto com o cubano David Virelles, então new star do piano, mais Thomas Morgan (baixo) e Gerald Cleaver (bateria), destacados players do “primeiro time” da capital mundial do jazz. E foi com este grupo que o trompetista gravou, em junho de 2012, o CD duplo Wislawa, inspirado conforme o próprio líder e autor das composições na obra da poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), Prêmio Nobel da Literatura de 1996.

Gravado em junho do ano passado, álbum traz 12 peças interpretadas pelo New York Quartet
Gravado em junho do ano passado, álbum traz 12 peças interpretadas pelo New York Quartet

O pistonista – que cria um jazz ao mesmo tempo free, em matéria de construção, e melancólico, em termos de poética musical – está de volta às lojas virtuais, sempre pela ECM, com o álbum December Avenue, gravado em junho do ano passado. São ao todo 12 peças interpretadas pelo seu New York Quartet, que mantém Virelles e Cleaver, mas tem agora Reuben Rogers no lugar de Morgan.

O renomado Thomas Conrad, ao comentar o disco anterior, Wislawa, na revista JazzTimes, assim descreveu a arte do trompetista-compositor Tomasz Stanko: “Ele escreve melodias que perfuram o coração como agulhas, mas que não são estritamente anotadas. Suas peças são formas abertas, alguns traços ou movimentos que introduzem um mood, e põem Stanko em ação. Ele precisa ter em torno de si músicos que possam responder, com criatividade independente, aos seus estímulos singulares”.

Este feliz insight de Conrad pode e deve ser citado como orientação para quem não tem ainda intimidade com a arte do jazzman polonês de prestígio internacional, mas que se dispõe a ouvir e a acompanhar a música que ele e seus acólitos criam ao longo de December Avenue.

As duas primeiras faixas do novo CD sinalizam logo as duas vias aparentemente conflitantes que o trompetista gosta de seguir:Cloud (4m10) é sombria como o céu nublado novaiorquino que aparece na foto-capa do álbum; Conclusion (2m) é uma breve saudação ao free jazz (particularmente a Don Cherry), em duo com o baixista Reuben Rogers. (29)

Mas em todos os momentos da set list o sopro enfumaçado de Stanko, pontuado por inesperadas escaladas ao registro agudo do instrumento, cria um clima de constante suspense.

Os títulos da maioria das peças são bem descritivos. Na meditativa Blue cloud (8m50) o pianista Virelles tem destaque muito especial. Bright moon (7m19) não poderia deixar de ser especialmente contemplativa. Burning hot (5m05) é mesmo incandescente, envolvendo o quarteto numa intensa criação coletiva. David and Reuben (1m30), no meio do disco, é um interlúdio oferecido pelo duo piano-contrabaixo.

(Samples do CD December Avenue podem ser ouvidos em: blog.highresaudio.com/en/album/view/nc57y6/tomasz-stanko-new-york-quartet-december-avenue)

Tags: Arte, Critica, carneiro, cultura, dicas musicais, disco, jazz, luiz orlando, música

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