Jornal do Brasil

Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Jazz

A música de John Lewis pela LCJO

Luiz Orlando Carneiro

O Modern Jazz Quartet (1954-1974) foi o conjunto camerístico de jazz por excelência. Sobriedade e refinamento no embalo de um swing sutil foram as marcas registradas do combo do qual o pianista-compositor John Lewis (1920-2001) era a cabeça e o vibrafonista Milt Jackson (1923-1999) o coração. Percy Heath (baixo) e Connie Kay (bateria) completavam o quarteto que soube dosar, com arte e precisão, aspectos formais da música erudita (fuga, contraponto) com o feeling do blues.

Mas John Lewis não foi apenas (o que já seria muito) o cérebro do MJQ. Como compositor, foi um dos arautos, ao lado de Gunther Schuller, da chamada Third Stream Music, cujos registros iniciais mais importantes são os álbuns The Golden Striker/Music for Brass & Piano e Jazz Abstractions (Atlantic, 1960).

Pianista Jon Batiste e Wynton Marsalis são destaques no novo CD
Pianista Jon Batiste e Wynton Marsalis são destaques no novo CD

Para reverenciar a obra do grande compositor-pianista, Sua Excelência Wynton Marsalis, diretor artístico da Jazz at Lincoln Center e da orquestra da instituição, promoveu, em 2013, um concerto intitulado 'The Music of John Lewis”. Na ocasião, Marsalis deu especial destaque a um jovem pianista nascido em Nova Orleans, de uma também eminente família musical, e que se formou na Juilliard School de Nova York: Jon Batiste, hoje com 30 anos, e líder do grupo Stay Human, que atua na televisão, desde 2015, como a house band do The Late Show with Stephen Colbert, da CBS.

O concerto da JLCO no Rose Theater, há mais de três anos, está agora à disposição dos jazzófilos no CD The Music of John Lewis: The Jazz at the Lincoln Center Orchestra (Blue Engine Recods), dividido em 11 faixas, das quais duas são breves comentários de Jon Batiste e Wynton Marsalis, respectivamente.

setlist abre e termina com duas das primeiras peças de sucesso da carreira de Lewis: 2 Degrees East, 3 Degrees West (7m05) e Two bass hit(6m45). Esta última foi escrita quando o pianista  compositor integrou a big band de Dizzy Gillspie ainda na década de 1940; 2 Degrees apareceu no LP Grand Encounter (Pacific Jazz, 1956), uma reunião de Lewis com jazzmen da West Coast do brilho de Bill Perkins (sax tenor), Jim Hall (guitarra) e Chico Hamilton (bateria).

A orquestra de 15 membros do JLC não atua como um todo em todas as faixas. Django (4m50) – uma das mais comoventes composições de Lewis – é interpretada, solo, por Jon Batiste, que exibe o seu toucher magnífico. Delaunay's dilemma (5m20) é recriada, em tempo rápido - num estilo que lembra o swing dos anos 40 - por um sexteto, com solos suculentos de Marsalis, Batiste, Ted Nash (sax alto) e Chris Crenshaw (trombone).

Na parte central do álbum, a JLCO – sempre com realce para o pianista e o trompetista – apresenta uma espécie de suíte com arranjos de quatro temas de The Comedy (Atlantic, 1962), álbum do MJQ inspirado na Commedia dell'ArteLa cantatrice (5m05), Piazza Navona (6m35), Pulcinella (4m05) e Spanish steps (4m45). O solo de Marsalis com efeitos de surdina (wa-wa) em Piazza Navona “vale o ingresso”.

Na apresentação do CD The Music of John Lewis, o emergente pianista Jon Batiste escreveu: “A música de Mr. Lewis está ainda conosco, e é uma honra colocar a minha arte a seu serviço. Assim, selecione esse disco, ouça-o com os olhos fechados e com a ajuda da sua imaginação”.

(Vídeo com Delaunay's dilemma em: www.jazz.org/blueengine/the-music-of-john-lewis)

Tags: Arte, carneiro, coluna, cultura, disco, jazz, lançamento, luiz, música, orlando

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