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Chano Dominguez: Jazz com toque flamenco

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

“A música exige o alerta da inteligência e o descuido da emoção” é uma frase que não encerra, apenas, um truísmo. A exigência pode ser comprovada na arte dos melhores jazzmen, que praticam um modo de expressão musical – e não um tipo de música – que Whitney Balliett chamou de The Sound of Surprise, título do seu referencial livro de ensaios publicado há mais de 50 anos.

Inteligência e técnica refinadas, emoção e intuição criativa em doses certas são os atributos que distinguem o eminente pianista-compositor Chano Dominguez, cujo CD Over the Rainbow vem de ser lançado pelo selo Sunnyside.

Nascido há 56 anos, em Cádiz, na Andaluzia, Chano Dominguez, é um jazzman que se dispõe a irrigar a música que cria e interpreta com a modalidade tonal e a intensidade emocional típicas do flamenco, de modo semelhante ao que fazia, na guitarra, o inesquecível – e também andaluz – Paco de Lucía (1947-2014). Mas o virtuose do piano exibe também a sua mestria na recriação harmonicamente elegante, à la Bill Evans, de temas do cancioneiro americano, como a conhecidíssima balada de Harold Arlen, de 1939, que é a faixa-título desse novo álbum solo, gravado ao vivo, em fevereiro de 2012, no Palau Falguera, em Barcelona.

Para essa seleção de 10 faixas, o pianista andaluz radicado em Nova York elegeu três peças memoráveis do repertório jazzístico: Evidence(5m15) e Monk's Dream (6m), de Thelonious Monk, o “High Priest of Bebop”; Django (6m50), de John Lewis, que virou marca registrada do Modern Jazz Quartet, a partir do LP editado em 1956.

Pianista andaluz radicado em Nova York lança álbum solo de 10 faixas

Na reinvenção de Django é particularmente notável o emprego por Dominguez de tremolos típicos do flamenco e de um ritmo levemente dançante sem que seja “desrespeitado” o espírito introvertido da composição de Lewis em memória do guitarrista cigano Django Reinhardt (1910-1953).

Chano apresenta duas composições de sua autoria, ambas dedicadas a seus filhos: a contemplativa Marcel (9m) e a movimentada Mantreria(6m15). O título desta última junta a palavra “mantra” com “bulería” (ritmo rápido em ¾) e anuncia uma improvisação densa a partir de um fraseado flamenco que acaba por adquirir uma entonação acentuadamente bluesy.

O programa do recital inclui também temas populares latino-americanos como os cubanos Drume negrita (5m15) e Hacia dónde (7m10); o chileno Gracias a la vida (9m35), de Violeta Parra; e o argentino Los ejes de mi carreta (5m10).

Em 2012, o pianista tinha lançado, com muito sucesso, à frente de um trio percussivo, Flamenco Sketches (Blue Note), que foi um dos cinco indicados para o Grammy na categoria “Latin Jazz”. Naquele CD – gravado ao vivo do clube Jazz Standard, Nova York, em 2009 – ele reinventou os temas constantes do antológico Kind of Blue (Columbia, 1959), de Miles Davis.

Agora, em Over the Rainbow, Chano Dominguez reafirma a sua arte admirável. Como observou o crítico Paul Rauch, ao conceder ao novo álbum a nota máxima de cinco estrelas no site All About Jazz, “para o ouvinte não familiarizado com a obra de Dominguez, o registro serve como uma amostra de seu impressionante virtuosismo”. E, “para os já engajados na sua viagem musical, representa um instantâneo (snapshot) na direção de novos horizontes”.

(As faixas DjangoMantreria e Over the rainbown podem ser ouvidas em: http://sunnysidezone.com/album/over-the-rainbow)



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