Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Jazz

Trompetista Wallace Roney revive os bons tempos

Luiz Orlando Carneiro

O trompetista Wallace Roney foi um dos young lions que deram sangue novo ao jazz no fim da década de 1980, início dos anos 90. Ele sucedeu Terence Blanchard nos Jazz Messengers de Art Blakey, mas passou a ter renome quando Miles Davis – pouco antes de morrer, em 1991 - o adotou como uma espécie de sucessor. No ano seguinte, Roney gravou o CD A Tribute to Miles Qwest/Reprise), ao lado dos grandes Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. E participou, também, do tenteto que Gerry Mulligan reuniu em Re-Birth of the Cool (GRP, 1992) para reinterpretar as peças das sessões batizadas como Birth of the Cool (1949-50), nas quais Miles, Mulligan, John Lewis, Lee Konitz, Gil Evans & Cia “fundaram” ocool jazz.

Porém, este breve currículo de Wallace Roney, hoje com 56 anos, não significa que ele seja, só, um fiel apóstolo do Miles Davis daquele glorioso quinteto (1964-68), com os quatro “grandes” acima citados, de tendência modal e pontilhista, mas que não perdia o acento rítmico do hard bop.

Discípulo de Miles Davis lança CD 'A Place in Time' com velhos amigos e saxofonista Ben Solomon
Discípulo de Miles Davis lança CD 'A Place in Time' com velhos amigos e saxofonista Ben Solomon

Nos últimos 10 anos, Roney gravou cinco álbuns como líder para a etiqueta HighNote, com destaque para If Only for One Night, em quinteto com o irmão Antoine (saxes tenor e soprano), e Understanding, em sexteto com Ben Solomon (sax tenor) e Arnold Lee (sax alto). Nestes registros, ele não deixou de fazer referências ou deferências a Miles, mas reafirmou ter técnica e personalidade suficientes para ser apreciado como um dos mais brilhantes e criativos trompetistas da atual cena jazzística.

Agora, em A Place in Time, novo CD da HighNote, o pistonista cerca-se de quatro velhos companheiros: Gary Bartz (sax alto), Patrice Rushen (piano), Buster Williams (baixo) e Lenny White (bateria). Além do bem mais moço saxofonista Ben Solomon.

Em entrevista à revista Downbeat (edição de fevereiro), Wallace Roney lembra que Bartz, Williams, Rushen e White integraram o seu primeiro quinteto (1998-2001), e que há muito tempo pretendia tê-los de novo a seu lado. “Nos reunimos durante dois dias, escolhemos alguns temas, reagimos e respondemos uns aos outros, cada um incitando o outro a tocar melhor”.

No entanto, Gary Bartz toca apenas em quatro das oito faixas do álbum: na melancólica Air dancing (6m25), com Roney à la Miles, na surdina; em Ardeche (7m25), bela composição de Solomon; em L's bop (6m25), de Lenny White, bem no estilohard bop como promete o título; e numa interpretação reverencial de Clair de lune (5m25), de Debussy, o trompete novamente assurdinado.

As faixas mais eletrizantes do novo disco de Roney - esquentadas pela excelente seção rítmica do quinteto - são Around through (6m40), tema do pianista Rushen, e Observance (4m10), assinada pelo líder e pelo saxofonista Ben Solomon. Este exibe suas notáveis qualidades de solista também no sax soprano em Around through.

setlist do CD tem ainda inspiradas reinvenções de Elegy (7m45), de Tony Williams, e My ship (5m05), composição de Kurt Weill que a dupla Miles Davis-Gil Evans celebrizou no antológico álbum Miles Ahead (Columbia, 1957).

(A faixa Around and through do CD A Place in Time pode ser ouvida em: soundcloud.com/highnote-savant-records/around-and-through-wallace-roney-flac)

Tags: Artigo, JB, coluna, jazz, luiz, orlando

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