Jornal do Brasil

Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Jazz

Surrealismo inspira novo CD de Dave Douglas  

Luiz Orlando Carneiro

Em 1999, os críticos da revista JazzTimes elegeram “artista do ano” o trompetista-compositor Dave Douglas. Ele tinha então 36 anos e, logo em seguida, confirmaria a sua condição de um dos mais originais e criativos jazzmencontemporâneos com o álbum A Thousand Evenings (RCA) – exemplo admirável de um tipo de jazz composicional de temática surpreendente que dava o mesmo “peso” tanto a uma versão de Goldfinger quanto a uma suíte inspirada na música klezmer intitulada The Branches.

A partir de então, o prolífico músico acumulou registros sempre surpreendentes na sua etiqueta Greenleaf, como os do elétrico sexteto Keystone (2006-2010); do quinteto de metais de Spirit Moves (2009), com trompa, trombone, tuba e bateria; do grupo com Jon Irabagon (sax) e Linda Oh (baixo), que gravou Be Still e Time Travel (ambos de 2012). Vieram a seguir: um duo com o grande pianista Uri Caine (Present Joys, 2014); mais música eletrônica em High Risk(2015); e um “retorno” ao quinteto com Irabagon-Matt Mitchell-Oh-Rudy Royston em Brazen Heart (2015).

'Dada Pople', com o novo quarteto do trompetista, tem na capa Dali e Man Ray
'Dada Pople', com o novo quarteto do trompetista, tem na capa Dali e Man Ray

O imprevisível Douglas rides again, desta vez com um CD intitulado Dada People (Greenleaf), que tem na capa uma foto dos então moços Salvador Dali (1904-1989) e Man Ray (1890-1976), expoentes do surrealismo e do dadaísmo nas artes plásticas.

As 10 peças de Dada People são interpretadas por um novo quarteto formado pelo trompetista com o pianista alemão Frank Woeste (há muito radicado na França) mais os as notáveis Clarence Penn (bateria) e Matt Brewer (baixo).

Esse tributo a Man Ray e Dali não é, propriamente, uma música “surrealista” no sentido que se chegou a dar, no passado, a certas obras de Erik Satie (Parade) e Stravinsky (L'Histoire du Soldat). Ou, mais tarde, a composições de Varèse, John Cage e Morton Feldman. Mas realça muito aquela característica surpreendente do jazz, aquela magia da improvisação que mereceu de Whitney Balliet o livro The Sound of Surprise (1959).

Como comentou um reviwer, o novo álbum de Dave Douglas e seus três comparsas “é jazz que nos encanta por seu espectro sonoro, que passa com fluidez de acentuações mais experimentais a grooves ardentes, sempre com um ar de mistério convidativo e pura elegância”.

Mas as referências aos dadaístas estão explícitas ou implícitas em alguns títulos das peças assinadas tanto pelo trompetista como pelo pianista, e são destacadas nas notas de apresentação do CD. A faixa de abertura, Oedipe(6m15), de Douglas, é inspirada em Erik Satie; Mains libres (6m15), de Woeste, tem o mesmo título de um livro de poemas de Paul Eluard que foi ilustrado por Man Ray.

Lê-se ainda nas notas de Dada People: “O clima misterioso de Montparnasse (6m50), do pianista, evoca a musa de Man Ray, Alice Pin, também conhecida como a 'Rainha de Montparnasse'. Já Transparent (6m55), de Douglas, entrelaça elegância e abstração de um modo que certamente agradaria aos dadaístas”.

Mas, na verdade, o disco do novo quarteto de Douglas pode ser degustado, com prazer, sem maiores referências à “arte moderna” daqueles 20 anos iniciais do Século XX. Dada People é mais um registro primoroso dessa arte da invenção ou da reinvenção que é o jazz, tal como concebido por um dos mais brilhantes trompetistas pós-Miles Davis.

A poética musical de Douglas parte, quase sempre, de suas próprias composições, cujas partes a serem improvisadas – livres dos grilhões da tonalidade convencional - são anotadas para orientar (ou prevenir) seus companheiros.

O seu principal comparsa no quarteto, Frank Woeste, 40 anos, é muito cotado (e premiado) na Europa como virtuose do teclado (grand piano e Fender Rhodes) e compositor. Seu último CD como líder, Pocket Rhapsody, em trio com Ben Monder (guitarra) e Justin Brown (bateria), foi lançado em janeiro deste ano pela etiqueta alemã ACT. 

(Duas faixas de Dada People podem seu ouvidas em: music.davedouglas.com/album/dada-people)

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