Jornal do Brasil

Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Jazz

Steve Heckman faz tributo a John Coltrane

Luiz Orlando Carneiro

Nas notas do seu novo álbum intitulado Legacy/A Coltrane Tribute (Jazzed Media) o saxofonista Steve Heckman escreveu: “Ouço um bocado de música nova, muito angular, que tem a pretensão de ser 'atual' e hip, embora não muito melódica. No melhor dos casos, essa nova música pode ser excitante; no que tem de pior, soa como exercícios de intervalos montados para criar melodias ou solos não muito memoráveis. Count Basie disse uma vez: 'Nunca pensei em inovação como algo muito importante. Os verdadeiros inovadores fizeram suas inovações simplesmente sendo eles próprios'. Assim, sou o primeiro a confessar que não estou fazendo nenhuma tentativa de ser um inovador; no entanto, sigo o caminho de ser verdadeiro com o que amo – a música de Coltrane, que considero melódica, lírica e enérgica”.

A afirmação do saxofonista nascido há 39 anos em Nova York, mas baseado em San Francisco, ressalta uma qualidade de John Coltrane (1926-1967) que costuma ficar em segundo plano quando jazz experts analisam a arte sem precedente do improvisador que, com as suas vertiginosas sheets of sounds, foi um dos detonadores do free jazz. E essa qualidade é a de ter sido ele também um inspirado compositor, um inventor de temas tão marcantes como foi Ornette Coleman.

No seu novo CD, quarteto do saxofonista baseado em San Francisco recria oito composições de "Trane"
No seu novo CD, quarteto do saxofonista baseado em San Francisco recria oito composições de "Trane"

Das 10 faixas do CD Legacy/A Coltrane Tribute interpretadas por Steve Heckman à frente do seu quarteto, oito são composições de “Trane”. As mais famosas são: Impressions (5m30), registrada pela primeira vez no LP da Impulse de 1961, gravado ao vivo no Village Vanguard; Resolution (6m40), a segunda parte de A Love Supreme, a obra-prima de 1964; The promise (6m10), de Coltrane Live at Birdland (Impulse, 1963); Wise one (8m), lançada no álbum Crescent (Impulse, 1964); a balada Dear Lord (6m50), de Transition (Impulse, 1965).

Heckman não incluiu na sua seleção Giant steps – a faixa-título do LP de 1959 (Atlantic) – que é cultuada como um marco na evolução do jazz moderno em termos de concepção harmônico-melódica, a partir de cinco notas modalmente combinadas. Mas selecionou duas peças pouco conhecidas de “Trane” que têm conexão com as chord changes de Giant stepsFifth house (6m15) e 26-2 (6m35).

O tributo a John Coltrane do quarteto de Heckman (Grant Levin, piano; Eric Markowitz, baixo; Smith Dobson V, bateria) foi gravado ao vivo no Hillside Club, Berkeley, California, em outubro de 2013.

O disco tem ainda os seguintes temas: Reverend King (2m30), composto por “Trane” em homenagem a Martin Luther King, e que dele mereceu uma longa interpretação constante do álbum póstumo Cosmic Music (Impulse, 1968); The legacy(6m35), peça de Heckman que homenageia o seu ídolo; It's easy to remember (6m50), standard de Richard Rodgers que Coltrane tocou em Ballads, seu álbum mais acessível, de 1962.

Steve Heckman reafirma as suas credenciais de saxofonista (tenor e soprano) do “primeiro time” apresentadas nos outros dois CDs que gravou para a Jazzed Media: Born to Be Blue (2013) e Search for Peace (2014), ambos em quinteto com Howard Alden (guitarra), Matt Clark (órgão), Marcus Shelby (baixo) e Akira Tana (bateria).

No novo álbum, ele privilegia decididamente o sax tenor, e só toca o soprano em The promise.

O pianista Grant Levin – não muito conhecido fora da West Coast - faz muitíssimo bem o “papel” que McCoy Tyner fazia no célebre quarteto de John Coltrane.

(Samples do CD Legacy/ A Coltrane Tribute podem ser ouvidos em: www.jazzedmedia.com/JM1074.cfm#sound_bytes)

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

Compartilhe: