Jornal do Brasil

Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Jazz

Dizzy Gillespie, safra 1980

Luiz Orlando Carneiro

Lá se vão 36 anos, o trompetista Dizzy Gillespie (1917-1993) promoveu em Montreal, Canadá, um concerto em homenagem a Charlie Paker (1920-1955) – o outro lendário founding father do bebop – na companhia de cinco músicos também famosos: James Moody (sax tenor e flauta), Milt Jackson (vibrafone), Hank Jones (piano), Ray Brown (baixo) e Philly Joe Jones (bateria).

O encontro desses grandes jazzmen na Place des Arts - o maior complexo cultural da principal cidade da província de Quebec – teria reunido cerca de 3 mil pessoas. Foi gravado pelo produtor Roué Doudou Boicel, e uma edição limitada (bootleg) em LP, de cinco faixas, chegou a circular entre os jazzófilos tempos depois.

A novidade é que a etiqueta Justin Time vem de lançar, na sua “Essentials Collection”, oito faixas desse esquecido concerto de 1980, somando quase uma hora de música e ovações, em três formatos: CD, iTunes e vinil (álbum duplo).

Selo Justin Time reedita esquecido concerto do trompetista no Canadá, ao lado de James Moody, Milt Jackson e Ray Brown
Selo Justin Time reedita esquecido concerto do trompetista no Canadá, ao lado de James Moody, Milt Jackson e Ray Brown

O título do registro, Concert of the Century, é um exagero assumido. É o mesmo do LP-bootleg de 1986, cujo subtítulo era também bombástico: “The world's nº 1 jazz record/Six living legends in full swing”.

Como sabem os jazzófilos veteranos, “o maior concerto de jazz de todos os tempos” (The greatest jazz concert ever), assim proclamado em várias reedições, foi o do quinteto Charlie Parker-Dizzy Gillespie no Massey Hall, Toronto, também no Canadá, em 15 de maio de 1953. Até por que os outros integrantes do quinteto eram, simplesmente, Bud Powell (piano), Max Roach (bateria) e Charles Mingus (baixo).

Não se deve viver no ou do passado. Mas é prazeroso visitá-lo, de vez em quando, sobretudo quando se trata de um registro musical memorável que resistiu ao teste do tempo. E este é o caso desse álbum redescoberto, ampliado e agora constante do sempre atraente catálogo do selo canadense Justin Time.

Das oito faixas do CD Concert of the Century, a segunda mais longa (10m20) tem como tema The shadow of your smile, de Johnny Mandel, que virou um hit com o filme The Sandpiper (“Adeus às Ilusões”, no Brasil), na década de 1960. James Moody, no sax tenor, depois de uma introdução bem free, inusitada, dá um show em solo de quatro minutos, com momentos de tensão à la Coltrane. Milt Jackson (vibrafone) e Hank Jones (piano) tocam em seguida, até que, aos sete minutos, Dizzy Gillespie e seu trompete tomam conta do espetáculo.

O sexteto liderado por Dizzy (esbanjando saúde e criatividade aos 63 anos de idade) é também empolgante na interpretação de Blue 'n' boogie (10m55), peça tipicamente bop, de sua autoria, com solos seguidos e troca de compassos no final entre todos os integrantes do grupo. O clima vibrante repete-se em Get happy (6m55), o standard de Harold Arlen, com uma exibição final do grande baterista Philly Joe Jones.

Gillespie não deixa de brindar o público do memorável concerto de Montreal com a interpretação de duas baladas: a imortalStardust (4m05), em dueto com o pianista Hank Jones; Time on my hands (8m15), de Vincent Youman, com o trompete assurdinado, mais Milt Jackson e a seção rítmica.

Nas duas faixas que não estavam na edição primitiva do concerto de 1980, o trompetista-líder não toca. O grande Milt Jackson é a estrela de If I should lose you (5m50). E Ray Brown mostra que era mesmo o “boss of the bass” - como é apresentado por Dizzy – em The bass solo/Manhã de Carnaval (7m55): um extraordinário solo de contrabaixo ao qual adere, num breve intermezzo de pouco mais de um minuto e meio, o pianista Hank Jones.

Finalmente, James Moody, na flauta, dá o seu show particular, acompanhado pela seção rítmica, em Darben the Redd Foxx(5m45), peça de sua autoria.

(As faixas If I should lose youStardust e Darben the Redd Foxx podem ser ouvidas em: www.justin-time.com/en/album/555)

Tags: Artigo, JB, coluna, jazz, luiz, orlando

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