Jornal do Brasil

Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Jazz

Mauro Senise e Romero Lubambo juntos de novo

Luiz Orlando Carneiro

Em 2014 e no ano passado, esta coluna registrou e recomendou dois álbuns assinados pelo saxofonista-flautista Mauro Senise, figura de proa da música instrumental brasileira e do samba jazz, desde a década de 1980, quando fundou o conjunto Cama de Gato com o baterista Pascoal Meirelles: Danças (Biscoito Fino) e Dois na Rede (Fina Flor).

O primeiro disco reuniu em torno de Senise compositores/arranjadores (pianistas também) do quilate de Gilson Peranzetta, Antonio Adolfo, Cristóvão Bastos e Jota Moraes. O segundo foi gravado ao vivo, em duo, num show no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, comemorando a parceria de 25 anos do saxofonista-flautista com mestre Peranzetta.

Também no ano que passou, o eminente violonista Romero Lubambo – radicado nos Estados Unidos há três décadas – foi destaque neste espaço por ocasião do lançamento do seu terceiro CD pelo prestigioso selo Sunnyside, um recital solo intitulado Setembro/A Brazilian under the Jazz Influence, apresentado pela gravadora como “um fabuloso retrato auditivo de um músico que faz a ponte entre o jazz e a música popular brasileira”.

Saxofonista-flautista e violonista tocam em duo, trio e quarteto no CD 'Todo Sentimento'
Saxofonista-flautista e violonista tocam em duo, trio e quarteto no CD 'Todo Sentimento'

Senise e Lubambo aqui estão de novo, desta vez juntos. Eles vêm de lançar o álbum Todo Sentimento (Fina Flor), com ummenu bem variado, interpretado em duo (cinco faixas), em trios (duas) e quartetos (seis), na companhia de Bruno Aguiar (baixo) e Mingo Araújo (percussão), mas contando com a participação especial – em três peças diferentes – de Edu Lobo (voz), Kiko Horta (acordeão) e Jota Moraes (vibrafone, palmas).

Na apresentação de Todo Sentimento, Roberto Muggiati cita Antonio Adolfo, segundo o qual “a síntese de samba, choro e baião ocorreu apesar do fato de que, melódica e harmonicamente, cada um destes estilos foi submetido a influências muito diferentes: cantos africanos (samba), danças europeias e música clássica (choro) e a atmosfera musical mourisca da Península Ibérica (baião)”. E que “essa maravilhosa mistura – mais um gosto de jazz (daí a bossa) e blues – resultou numa combinação muito especial que se tornou e persiste muito popular entre os músicos brasileiros”.

Pois bem. Das 13 peças do novo CD da dupla de craques Mauro Senise-Romero Lubambo, os que procuram um “gosto de jazz” mais evidente ou mais apurado na música instrumental brasileira darão preferência, certamente, a sete delas, das quais quatro em quarteto, duas em duo e uma em trio.

Das faixas em quarteto destacam-se logo as duas primeiras da setlist: a contagiante Lukinha (5m15), de Lubambo, com solos do baixista Aguiar, de Senise (flauta) e do violonista; Chora, Baião (5m30), de Antonio Adolfo, introduzida com efeito sônico muito original e solo meditativo do colíder no sax alto. Dona Teca Ganhou Asas (6m30), de Jota Moraes, de marcante variedade percussiva, tem o autor no vibrafone (no lugar do baixista), Senise no sax alto e Lubambo exibindo a sua maestria no dedilhar das seis cordas. Itacuruçá (6m05), outro tema de Lubambo, tem melodia envolvente, sobre a qual flutuam o violonista e o flautista.

Nas cinco peças em duo Senise prefere a flauta no clássico samba-canção Da cor do pecado (5m55), de Bororó, e no gingado O Império contra-ataca (3m35), de Peranzetta. Nas meditativas Always and forever (6m20), de Pat Metheny, e Todo o sentimento (6m10), de Cristóvão Bastos, o saxofonista vai de soprano. Mas o seu sax alto bem jazzístico é irresistível emSaudade do Rio (4m50), de Nelson Faria.

Edu Lobo empresta o seu prestígio como vocalista-compositor, ao lado dos líderes e do baixista Aguiar, às duas faixas que não são puramente instrumentais e, portanto, mais a gosto dos que ouvem mais MPB em geral do que samba jazz propriamente dito: Candeias (5m20) e Só me fez bem (3m40).

A faixa mais longa do disco é Linda flor (7m10), em trio (Senise no sax alto) completado pelo acordeonista Kiko Horta, com interpretação bem à la lettre, ou seja, sem maiores surpresas.  

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