Jornal do Brasil

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2016

Jazz

Museu Louis Armstrong celebra 90 anos do Hot Five

Luiz Orlando Carneiro

O Louis Armstrong House Museum – a casa do bairro de Queens (Nova York) onde o “Founding Father” do jazz viveu de 1943 até a sua morte, em 1971 – promove neste mês de fevereiro uma exposição para celebrar o 90º aniversário das gravações, em Chicago, do quinteto Hot Five, à frente do qual o trompetista nascido em Nova Orleans registrou as primeiras obras referenciais do jazz instrumental (e também vocal) produzidas por um pequeno conjunto.

O Hot Five foi formado por Armstrong para gravar uma série daqueles discos de 78 r.p.m. para a etiqueta Okeh. Ele já era um músico conhecido desde que, na condição de segunda corneta da Creole Jazz Band de Joe “King” Oliver (1885-1938) - que tocava na base da improvisação coletiva – gravara, em 1923, 39 “faces” em torno de três minutos cada uma para os selos Paramount, Okeh e Gennett. Os comparsas de “Satchmo” no Hot Five eram Johnny Dodds (clarinete), Kid Ory (trombone), Johnny St. Cyr (banjo) e a pianista Lil Hardin (a primeira mulher do líder).

Quinteto foi o primeiro pequeno conjunto referencial da história do jazz
Quinteto foi o primeiro pequeno conjunto referencial da história do jazz

A individualização dos solos começou então a transformar o estilo New Orleans puro, derivado do som clangoroso e do ritmo arrastado (“second line”) das marching bands. O musicólogo e compositor francês André Hodeir, numa análise dos discos do Hot Five, destacou que a principal característica da série “é o triunfo da personalidade sobre a coletividade, do indivíduo sobre o grupo”.

Assim é que o modo de expressão musical que já era chamado de jazz começou a exigir mais e mais do engenho e da arte dos músicos. Nesses registros fonográficos de 90 anos atrás, a técnica às vezes falha de Johnny Dodds e de Kid Ory não resiste à comparação com a técnica, a invenção melódica e os breaks de Armstrong.

Os registros históricos das sessões do Hot Five de 22 e 26 de fevereiro de 1926 incluem Cornet chop sueyOriental strut,Georgia grindCome back sweet papaMuskrat ramble e Heebie jeebies.

Foi gravando Heebie jeebies naquela sessão de 26/2/26 que “Satchmo” introduziu o scat singing no jazz.

Como se sabe, o scat caracteriza-se pela substituição das letras originais das canções por sons onomatopaicos, o que dá ao vocal uma excepcional caráter rítmico. Conta-se que Armstrong, no meio da gravação, deixou cair a partitura, e como não soubesse a letra de cor, passou a improvisar monossílabos. Kid Ory dizia que o trompetista sabia, sim, a letra da canção de cor, mas fingiu esquecê-la para surpreender a todos com a trouvaille.

Em maio de 1927, o trompetista adicionaria ao Hot Five a bateria de Baby Dodds e a tuba de Pete Briggs, formando o Hot Seven, a fim de gravar uma série de joias no “novo” estilo New Orleans, dentre as quais Wild man blues e Potato head blues.

cream of the crop dos Hot Five e Hot Seven está em 18 faixas do CD The best of Louis Armstrong: The Hot Five and Hot Seven recordings (Columbia Legaccy), editado em 2002.

(A gravação acima citada de Oriental strut pode ser ouvida em www.youtube.com/watch?v=aQQ5ro_FO70; a de Heebie jeebs em www.youtube.com/watch?v=ksmGt2U-xTE)

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

Compartilhe: