Jornal do Brasil

Sábado, 16 de Dezembro de 2017

Jazz

Michael Blake: A reciclagem da mainstream 

Luiz Orlando Carneiro

O belga Adolphe Sax inventou o saxofone em 1840. Na década de 1930, em Nova York, Coleman Hawkins (1904-1969) o reinventou, fazendo desabrochar a maleabilidade e as riquezas de timbre escondidas no instrumento em forma de jota que virou o próprio símbolo do jazz. Na mesma época, inicialmente como sideman de Count Basie, em Kansas City, Lester Young (1909-1959) patenteou aquela sonoridade cool, sensual, despojada de vibrato, e um estilo de tocar o sax tenor surfando por sobre o beat.

Nascido no Canadá em 1964, mas radicado em Nova York há 25 anos, o saxofonista-compositor Michael Blake destacou-se como integrante do Jazz Composers Collective, ao lado de outros músicos também brilhantes como Frank Kimbrough (piano), Ben Allison (baixo), Ted Nash (sax tenor), Wycliffe Gordon (trombone) e Ron Horton (trompete). O grupo sempre procurou fazer jazz a partir da fórmula “new bottle/old wine”, primorosamente desenvolvida no CD The Herbie Nichols Project/ Strange City (Palmetto, 2001).

Saxofonista tenor relembra Coleman Hawkins e Lester Young em 'Tiddy boom'
Saxofonista tenor relembra Coleman Hawkins e Lester Young em 'Tiddy boom'

Nessa mesma linha, Michael Blake reaparece agora com Tiddy boom (Sunnyside), gravado em janeiro do ano que passou, e o seu 10º álbum na condição de líder. Trata-se do produto de uma encomenda da Chamber Music America para que ele escrevesse uma suíte a partir do tema Contrasts in individualism. E Blake pensou logo em Coleman Hawkins e Lester Young, para reinterpretar – com engenho e arte próprios – os estilos contrastantes “dessas duas raízes da árvore do saxofone tenor”, para usar uma expressão de Ted Panken.

À frente de um quarteto com os fieis companheiros Frank Kimbrough e Ben Allison, mais o conceituado Rudy Royston na bateria, o tenorista demonstra, em oito peças (cerca de 45 minutos no total), que a mainstream do jazz tal qual traçada por estilistas únicos do porte de “Hawk” e de “Pres” resistirá sempre ao teste do tempo. Desde que, é claro, “reciclada” por jazzmen de técnica e criatividade superlativas.

Nas notas de apresentação do CD da Sunnyside lê-se, com muita propriedade, que muitos músicos “consideram refrescante relembrar estilos e mestres, a fim de estimular a criatividade”. E que tal prática leva os ouvintes a apreciar “a verdadeira amplitude do talento artístico de um músico, tendo em vista os seus achados mais contemporâneos em face do seu conhecimento da 'tradição', que é tão importante no jazz”.

É o que ocorre em Tiddy boom, que é também o título da segunda faixa do álbum, de pouco mais de cinco minutos, entre Skinny dip (4m55) e Hawk's last rhumba (6m15). As duas primeiras são mais bluesy, e mais “lesterianas”; a terceira, como é evidente, foi escrita por Blake com Hawkins em mente. A nonchalance de Lester Young, em contraste com o piano “retrô” de Kimbrough é sublinhada em A good day for Pres(5m45), que contém um diálogo muito original entre o sax tenor e o baixo de Allison.

As demais faixas do álbum são igualmente cativantes, e é o próprio Michael Blake quem explica, com simplicidade, a concepção da suíte: “A fonte da música provem dos recursos técnicos dos dois saxofonistas, do individualismo de suas improvisações e do legado que deixaram. A meu ver, suas estruturas rítmicas, harmônicas e melódicas são semelhantes a um elevador (Hawkins) e a uma escada rolante (Young); dois meios diferentes de levar ao mesmo lugar”.   

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