Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Jazz

Dave Douglas e Uri Caine gravam CD em duo

Luiz Orlando Carneiro

O trompetista Dave Douglas e o pianista Uri Caine são músicos brilhantes e heterodoxos, donos de discografias que registram “viagens” fascinantes além da mainstream do jazz.

Como anotei recentemente neste espaço (3/5/2014), a propósito do lançamento do seu novo quarteto Riverside, o primeiro grande álbum de Dave Douglas foi A thousand evenings (RCA, 2000), marco do jazz “composicional”, de temática variada, incluindo uma suíte (The branches) inspirada na música judaico-balcânica. Seguiram-se registros sempre surpreendentes como os do elétrico sexteto Keystone; do quinteto de metais de Spirit moves (2009); do combo com Jon Irabangon (sax) e Linda Oh (baixo) que gravou o pungente Be still e o complexo Time travel(ambos de 2012).

O pianista Uri Caine, de sólida formação clássica, também adora trilhar caminhos inesperados, reinventando peças de Bach (Variações Goldberg, 2000), Mahler (Urlicht/Primal light, 1998) e Mozart (Plays Mozart, 2006). Ou aderindo à fusão jazz-rock, trocando o pianoforte pelo Fender Rhodes, à frente da banda Bedrock (Bedrock 3, 2002; Shelf-life, 2005).

Virtuoses do trompete e do piano exploram temas do hinário religioso americano em 'Present joys'
Virtuoses do trompete e do piano exploram temas do hinário religioso americano em 'Present joys'

Douglas e Caine são antigos parceiros num quinteto que já gravou The infinite (2002) e Strange liberation (2004), ambos na etiqueta Bluebird, e Meaning and mistery (2006), já no selo Greenleaf, do trompetista.

Agora, pela primeira vez em duo – tête-à-tête - a dupla vem de lançar o CD Present joys (Greenleaf), cuja originalidade está na exploração jazzística, em interplay, de cinco temas garimpados no livro de cânticos do Século 19 intitulado The sacred harp. Tais canções religiosas ficaram conhecidas como “shape-note singing”, sendo “shape-note” uma espécie de notação musical simplificada para quem não tinha estudado música, e não sabia ler as pautas com precisão.

Dave Douglas escreveu para o álbum outros cinco temas, mais ou menos no mesmo espírito do hinário protestante típico da “Americana”, mas deixando o caminho aberto para uma constante troca de ideias com Uri Caine, na base do contraponto ou do responsório, naquele altíssimo nível de inventividade e técnica que deles era de se esperar.

“Os cânticos do Sacred harp são peças de muito sentimento, e não tive a intenção de tocá-los com qualquer ironia. Acho que a música é realmente bela, e tenho a esperança de que, do modo como a interpretamos, tanto os ouvintes de jazz quanto os fãs do Sacred harp a considerem e a apreciem”, escreveu o trompetista-compositor nas notas para o novo disco.

Isto não quer dizer que a “leitura” dos temas pelo duo de virtuoses tão originais seja formal ou cerimoniosa. O hino Soar away (3m55), a primeira faixa de Present joys, tem um desenvolvimento alegre, com o piano esvoaçando, swinging, em torno da linha melódica mais “séria” exposta pelo trompete no registro grave. Ham fist (5m), peça de Douglas, é bem bluesy, com destaque para o trabalho percussivo do piano de Caine. O tema pungente de Bethel (4m50), do hinário protestante, é declamado com reverência pelo pistonista, que prefere realçar a sua arte de primoroso “escultor” da massa sonora do instrumento. A interpretação da faixa-título (4m55), também colhida no hinário do século 19, tem um clima que remete aos primeiros tempos do jazz em Nova Orleans e Chicago, com intervenções particularmente notáveis do pianista. EmSeven seas (4m25), de Douglas, em tempo rápido, o extraordinário duo dá outro show de engenho e arte. 

A propósito, as 10 faixas do CD podem ser degustadas em http://music.davedouglas.com/album/present-joys./

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