Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Jazz

O Microscopic Septet ataca de novo

Luiz Orlando Carneiro

O Microscopic Septet tem como líderes, compositores e arranjadores o saxofonista soprano Philip Johnston e o pianista Joel Forrester, que até gostam de adotar o título de “a mais famosa banda desconhecida de Nova York”. Na década de 1980 e até 1992, o conjunto de quatro saxes (soprano, alto, tenor e barítono) mais piano, baixo e bateria foi muito aplaudido pelos músicos e jazzófilos vanguardistas que frequentavam os clubes da Manhattan Downtown, principalmente o original Knitting Factory. No caso dos “Micros”, a crítica especializada só tinha uma dúvida. Se eles criavam e tocavam uma espécie de “jazz pós-moderno retrô” ou um “jazz retrô de vanguarda”.

Sem se preocuparem com esse “dilema”, Johnston e Forrester andaram meio sumidos por muito tempo. Até que reapareceram, em 2008, com o álbum Lobster leaps in (referência bem humorada a um tema de Lester Young), editado pelo selo Cuneiform. Dois anos depois, na mesma etiqueta, eles lançaram The Micros play Monk – uma recriação muito original, às vezes até free, de 12 composições de Thelonious Monk.

Banda neo-retrô de Forrester & Johnston lança 'Manhattan moonrise'
Banda neo-retrô de Forrester & Johnston lança 'Manhattan moonrise'

Forrester & Johnston, os também saxofonistas Don Davis (alto), Mike Hashim (tenor) e Dave Sewelson (barítono), Richard Dworkin (bateria) e David Hofstra (baixo) “atacam” novamente com o CD Manhattan moonrise (Cuneiform). Só que, desta vez, as 12 peças do menu são de autoria dos dois chefs do conjunto.

O pianista Forrester assina oito delas, inclusive a faixa-título - a mais longa do disco (8m10), que remete aos tempos do swing, mas acolhe excêntricos espasmos – e Blue (4m10) – quase que totalmente free, naquele clima sonoro conturbado típico da música de Albert Ayler. Já emOccupy your life (5m15), Forrester usa aquele tema inesquecível do allegretto da 7ª Sinfonia de Beethoven como ponto de partida.

O saxofonista Johnston escreveu quatro faixas, com destaque para: Obeying the chemicals (3m20), decididamente free-funkyLet's coolerate(5m10), baseada em swinging riffs, e contendo um daqueles solos hard stuff não recomendados para ouvidos românticos do sax barítono Sewelson; You got that right (4m55), um blues muito cativante, com ótimos solos.

O “toma lá, dá cá” entre o in e o out, entre o esperado e o imprevisto, entre a tonalidade e a politonalidade é a marca registrada do Microscopic Septet. E é assim explicado pelo colíder Philip Johnson, nas notas que escreveu para o novo álbum:

“Acho que o ímpeto inicial na história da banda era (e se mantém) duplo. Primeiramente, expressar nosso amor pela maravilhosa tradição dos conjuntos de jazz exemplificada por músicos tão diversos como Jelly Roll Morton, Duke Ellington, John Kirby, Raymond Scott, Charles Mingus, Sun Ra, e os integrantes do Art Ensemble of Chicago. Em segundo lugar, trazer de volta o jazz-diversão de certas bandas da época doswing como as de Louis Jordan e Cab Calloway. Mas, ao mesmo tempo, tocando música resolutamente 'moderna'”.

Os ouvintes de Manhattan moonrise devem apreciá-lo com esta concepção em mente. E também cientes de que o Microscopic Septet procura “capturar não apenas o som do jazz, mas também o som – ou trilha sonora (soundtrack) – da América do Século XX”, como se pode ler no site do conjunto.

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