Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Dezembro de 2014

Jazz

Manuel Valera, outro cubano a brilhar na cena do jazz

Luiz Orlando Carneiro

A Ilha de Cuba produz, além de charutos e rum, excepcionais pianistas de jazz que não devem ser rotulados, apenas, como especialistas no chamado Afro-Cuban jazz. Os exemplos mais eloquentes são os magníficos Bebo Valdés (1918-2013) e seu filho Chucho – este ainda ativo, aos 72 anos, e detentor de nada menos do que oito grammies, conquistados entre 1979 e 2012.

Além dos já canonizados Valdés, gozam de justo prestígio, no planeta jazz, mestres do teclado como Hilario Durán, Omar Soza e Gonzalo Rubalcaba (Grammy winner com o CD Supernova, Blue Note, 2001). Mais recentemente, foram elevados à categoria de rising stars (estrelas em ascensão) os cubanos Aruán Ortiz, Roberto Fonseca, Fabián Almazan, Alfredo Rodriguez e Manuel Valera - todos eles radicados nos Estados Unidos, com discografias já significativas, e agendas cheias de compromissos em clubes e festivais.

O CD mais recente e relevante dessa turma mais nova, que se formou nas até hoje afamadas escolas de música de Havana, é de Manuel Valera, e tem o título de Self portrait (Mavo Records). É o oitavo álbum do pianista de 33 anos, mas o primeiro totalmente solo, na companhia – apenas – de um Steinway restaurado de 1918. Os seus registros anteriores foram feitos à frente do New Cuban Express, um sexteto decubop (Cuban bebop), tendo como principais parceiros o saxofonista alto Yosvany Terry e o guitarrista Tom Guarna.

Pianista lança Self portrait, em CD solo
Pianista lança Self portrait, em CD solo

Self portrait é uma seleção de 13 faixas, das quais oito de autoria do pianista, incluindo três “impromptus” (literalmente improvisos) nas quais Valera exibe, especialmente, a sua intimidade com a música dita erudita, aquela que estudou no conservatório: o nº 1 (4m40) é dedicado a George Gershwin (1898-1937); o nº2 (2m30) a Erik Satie (1866-1925), o “minimalista” autor das Gymnopédies; o nº3 (1m55), a Nicolas Slonimsky, compositor e maestro nascido na Rússia, mas que emigrou cedo para os Estados Unidos, onde morreu, em 1995, aos 101 anos. Há também uma peça no mesmo espírito dos impromptus, intitulada, simplesmente, Improvisation (2m25).

O virtuosismo clássico de Manuel Valera é ainda realçado na articulação dos seus românticos arpejos, em contraste com o fraseado em contraponto da outra mão, sobretudo em Spiral (5m55), Water (6m40) e Hope (5m55). Mas na última faixa, Blues (3m40), o cubano de Havana, sediado em Nova York, é a própria encarnação de um Bobby Timmons ou de um Red Garland.

Valera não poderia deixar de incluir num álbum intitulado “Autorretrato” composições de ícones do teclado jazzístico que o marcaram ou o influenciaram, de um modo ou de outro. E escolheu três preciosas joias que são relapidadas com arte e engenho próprios, sem prejuízo de suas estruturas melódico-harmônicas originais: Very early (5m35), de Bill Evans; Hallucinations (3m40), de Bud Powell; Ask me now (6m30), de Thelonious Monk. (32)

Também fez questão de relembrar as melodias de dois boleros que, certamente, ouviu muito em sua casa, quando garoto: Solamente una vez (5m20), de Agustín Lara (1900-1970), e Las perlas de tu boca (5m15).

Na apresentação de Self portrait, Manuel Valera escreveu: “Espero que este disco ajude a pintar, para o ouvinte, um retrato de onde estou vindo e também para onde estou indo como pianista e compositor”. 

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