Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Jazz

Joshua Redman, ao vivo, no Jazz Standard e no Blues Alley

Luiz Orlando Carneiro

Joshua Redman não se contentou, apenas, em confirmar o dito popular “filho de peixe peixinho é”. Seu pai, o também saxofonista tenor Dewey Redman (1931-2006), foi sideman de Ornette Coleman (cf. álbuns New York is now, da Blue Note, e Ornette at 12, da Impulse, ambos de 1968) e fundador do antológico quarteto Old and New Dreams (1978-80), ao lado de Don Cherry (pocket trumpet), Charlie Haden (baixo) e Ed Blackwell (bateria).

Aos 45 anos, Joshua Redman – um neo-clássico assumido, e não um “vanguardista” como o pai – integra o atual primeiro time dos tenoristas de jazz, no mesmo nível de excelência dos seus contemporâneos James Carter, Eric Alexander e Branford Marsalis. Todos eles exibem discografias relevantes que os credenciam como legítimos sucessores dos ainda ativos e hors-concours Sonny Rollins, Wayne Shorter, Charles Lloyd e Joe Lovano. Cada um, é claro, com a sua voz, com o seu estilo.

Joshua consagrou-se em três CDs gravados para o selo Nonesuch entre 2007 e 2010: Back East, no comando de três trios sem piano, homenagem ao histórico trio de Sonny Rollins do LP Way out West (Contemporary, 1957); Compass, com trios e double trios na companhia dos baixistas Larry Grenadier e Reuben Rogers, e dos bateristas Brian Blade e Greg Hutchinson; o encantador James Farm – quarteto cooperativo no qual a “marca” James é formada pelas iniciais dos primeiros nomes do saxofonista, e de Aaron Parks (piano), Matt Penman (baixo) e Eric Harland (bateria).

Nonesuch lança novo CD do saxofonista, "Trios live"
Nonesuch lança novo CD do saxofonista, "Trios live"

A etiqueta Nonesuch acrescenta agora à sua discografia um registro muito especial, intitulado Trios live – quatro faixas captadas em apresentações no clube Jazz Standard, de Nova York, em 2009, e três gravadas, em fevereiro do ano passado, no Blues Alley, de Washington. Os trios têm, como acólitos, o baterista Hutchinson e os baixistas Reuben Rogers (no Blues Alley) e Matt Penman (no Jazz Standard).

Quem já ouviu ao vivo Joshua Redman (no sax tenor, mas também no sax soprano) sabe que ele e seus comparsas são ainda mais empolgantes tocando diretamente para o público do que nas sessões de estúdio. Aqui no Brasil, ele hipnotizou as plateias que o aplaudiram no Festival Tudo é Jazz (Ouro Preto), em setembro de 2010, e no BMW Jazz Festival (São Paulo-Rio de Janeiro), em junho de 2011. Matt Penman qualificou muito bem os conjuntos liderados por Joshua como veículos de “jazz acústico com uma atitude progressista e som moderno, criando música que é, ao mesmo tempo, rítmica e tecnicamente complexa e harmonicamente rica”.

No novo CD Trios live, as faixas mais recentes, ao vivo, no Blues Alley, são: a clássica balada Never let me go (6m35), com direito a uma coda tão envolvente como a melodia; Act natural (12m25), original do saxofonista tenor, e a performance mais longa do disco; Soul dance (6m30), tema também de Joshua, baseado em sete notas, que são desenvolvidas no sax soprano até um ápice coltraneano.

Das quatro faixas registradas no Jazz Standard, há cinco anos, apenas a original Mantra #5 (7m35), com introdução a capella, é tocada no sax soprano, aquecida depois pela fervilhante e sempre notável bateria de Gregory Hutcherson. As outras três são recriações, no sax tenor, deMoritat/Mack the knife (12m), de Kurt Weill; de Trinkle, tinkle (5m55), de Thelonious Monk; e de Ocean (6m35), do grupo Led Zeppelin. Estas duas últimas faixas, ritmicamente assimétricas, têm tratamento particularmente free, e empolgam a assistência do clube novaiorquino.

Nas notas do álbum, Joshua Redman dedica-o “a todas essas pessoas, do mundo todo, de todas as idades, posições e crenças, que se reúnem, dia após dia, noite após noite, para ver e ouvir jazz ao vivo”. Ou seja, “the sound of surprise” - para usar o achado de Whitney Balliett, que cai como uma luva para adjetivar a música do brilhante saxofonista-compositor.

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