Jornal do Brasil

Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Jazz

Bonebridge Quartet concilia violoncelo e slide guitar em 'Nighthawks'

Luiz Orlando Carneiro

Lá na década de 1950, Harry Babasin (1921-88) introduziu o violoncelo na discografia jazzística, tocando-o em pizzicato, no comando do quinteto The Jazz Pickers, ao lado de gente muito boa da West Coast, como os vibrafonistas Red Norvo e Larry Bunker, o pianista Hampton Hawes e o flautista Budy Colette. O mestre do contrabaixo Oscar Pettiford (1922-60) passou também a usar o cello quando quebrou um braço e, no processo de recuperação, teve de se servir do instrumento de quatro cordas menos “pesado”. Um dos últimos LPs que Pettiford gravou como líder teve como título My little cello.

O violoncelista Erik Friedlander, hoje com 54 anos, notabilizou-se tanto no campo da música erudita como na cena jazzística de vanguarda da Nova York downtown, na companhia do heterodoxo e genial John Zorn (vide Volac: Book of angels, vol. 8, selo Tzadic, 2007). Em homenagem a Oscar Pettiford, Friedlander lançou, em 2008, o CD Broken Arm Trio (Skipstone), com o baixista Trevor Dunn e o baterista Mike Sarin.

Novo CD de Erik Friedlander (primeiro à esquerda) tem clima de film noir
Novo CD de Erik Friedlander (primeiro à esquerda) tem clima de film noir

Agora, neste último mês, o violoncelista-compositor enriqueceu a sua obra com a edição do álbum Nighthawks (Skipstone), gravado em maio do ano passado, no leme do seu trio habitual que, com a adição fundamental do guitarrista Doug Wamble, especialista no efeito slide, torna-se o Bonebridge Quartet.

Friedlander explica que a maioria das 10 peças do disco foi por ele escrita em setembro de 2012, durante as cinco escuras noites nas quais o Furacão Sandy mergulhou Nova York: “Minha vizinhança estava sombria e sinistra, sem as luzes dos postes, sem os sinais de trânsito, as lojas e os restaurantes fechados. A cada 10 ou 15 minutos um carro de polícia aparecia, avançando corajosamente pela escuridão, com as luzes de emergência piscando, mas sem sirenes”.

Esse clima de film noir levou o músico – artista de grande sensibilidade - a lembrar-se daquela desolação que habita os quadros do grande pintor Edward Hopper (1882-1967), que retratou, como nenhum outro artista plástico, a solidão do americano comum na cidade vazia, no quarto, no escritório, no posto de gasolina da estrada, ou mesmo no campo.

E é por isso que o novo álbum do quarteto Bonebridge tem o título de Nighthawks (aves noturnas, em tradução livre), que é o mesmo do mais famoso quadro de Hopper – aquele, de 1942, em que um casal, um homem só e o garçom de uma cafeteria barata, numa esquina deserta dadowntown, são “vistos” pelo pintor, do outro lado da rua, através das vidraças do prédio.

Quatro composições de Friedlander – com o seu cello em pizicatto (raramente com arco) interagindo com a slide guitar de Wamble, a bateria (escovinhas no snare e no címbalo) de Sarin e o upright bass de Dunn – são primorosas invenções musicais claramente inspiradas em Hopper: a faixa-título (7m50), Hopper's blue house (5m15), Nostalgia blindside (4m55) e One red candle (5m15).

Mas o CD do quarteto Bonebridge não se limita a uma meditação musical – com base num jazz camerístico – sobre a “Americana” de Hopper. Não é apenas um film noir. É também um road movie, uma viagem às raízes bluesy e sulistas da “Americana”.

Em entrevista à Downbeat (edição de junho último), Erik Friedlander fala de tais raízes:

“Quando criança, eu adorava o rock sulista – os Allman Brothers, os Outlaws, a Charlie Daniels Band, Johnny Winter (…) Quando comecei a conceber a nova banda (o quarteto Bonebridge), eu queria algo que tivesse, na linha de frente, a química do que minha memória guardou daquelas bandas – e pensei na slide guitar”.

Essa “química” inclui, portanto, a acentuação roqueira do backbeat e o sotaque sulista da música caipira (countrybluegrass), como se pode ouvir e curtir em faixas bem movimentadas como Sneaky Pete (5m), Clockwork (5m10), Twenty-six gasoline stations (4m35), Poolhallplayback(4m10) e The river (6m15).

Para o crítico Larry Blumenfeld (Artinfo), a música do CD Nighthawks é “um blend do tanger (twang) e da energia do rock sulista com o desafio e a ambição da Manhattan downtown”.

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, texto

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