Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Jazz

A herança de Charlie Haden

Luiz Orlando Carneiro

O grande contrabaixista e também compositor Charlie Haden morreu, na última semana, aos 76 anos, em Los Angeles, depois de prolongada luta contra os efeitos degenerativos de síndrome pós-pólio relativa à poliomielite que contraiu na juventude. Ele deixou a mulher, Ruth Cameron, com quem casara há 30 anos, e quatro filhos, todos instrumentistas e vocalistas ligados, de um modo ou de outro, ao jazz e ao country rock típico do Meio-Oeste (Iowa), onde nasceu o pai: Josh (baixo) e as trigêmeas Petra (violinista), Rachel (baixista) e Tanya (violoncelista). A família chegou a produzir, em 2008, o álbum Rambling boy (Decca).

A grande herança de Charlie Haden - “canonizado” como jazz master pela National Endowment for the Arts, em 2012 – é uma extraordinária discografia erigida ao longo de 52 anos. A começar pela sua participação ativa como sideman do saxofonista Ornette Coleman, nos quatro LPs da Atlantic, gravados entre 1958 e 1960, que detonaram o chamado free jazzThe shape of jazz to come,Change of the centuryThis is our music e Free jazz - este último com aquele incrível double quartet que incluía Don Cherry (pocket trumpet), Freddie Hubbard (trompete), Eric Dolphy (clarone), Scott LaFaro (baixo), Ed Blackwell e Billy Higgins (baterias).

Ao receber o prêmio da NEA, Haden disse, com o seu jeito muito bem articulado e sintético de falar, tocar e compor: “Este prêmio significa que tenho sido reconhecido por meus pares por ter contribuído, de um modo significativo, para essa forma de arte que chamamos 'jazz' e, espero, para este planeta que chamamos 'terra'. É uma grande honra”.

Depois da histórica e frutífera colaboração com Ornette Coleman, o baixista-compositor fundou, em 1969, em associação com a compositora-arranjadora-pianista Carla Bley, a engajada Liberation Music Orchestra, integrada por vanguardistas do calibre de Don Cherry (trompete), Dewey Redman e Gato Barbieri (saxes) e Roswell Rudd (trombone). A orquestra gravou para a Impulse e para a ECM (Ballad of the fallen, 1982).

O dedilhado à la guitarra de Haden no upright bass e a sua profunda musicalidade levaram-no também a dois conjuntos notáveis das décadas de 70 e 80: o American Quartet do pianista Keith Jarrett (com Dewey Redman, sax tenor; Paul Motian, bateria) e o Old and New Dreams – quarteto ainda mais free, com Redman, Don Cherry e o baterista Ed Blackwell, e que fez dois excelentes registros para o selo ECM: Old and new dreams (1979) e Playing (1980, ao vivo, concerto na Áustria).

Em 1986, Charlie Haden formou o seu Quartet West – jazz mais mainstream, na linha do bop, mas sempre com a marca sofisticada do líder – tendo como sidemen Ernie Watts (sax tenor), Alan Broadbent (piano) e Billy Higgins (bateria). Os dois álbuns marcantes do combo, ambos da Verve, foram o primeiro, com o nome do grupo, de dezembro de 1986, e Angel City, de 1988.

Mas o sumário mais relevante e consagrador da arte do lendário baixista (sempre acústico) é a série de oito concertos (tributos) organizados pelo Festival Internacional de Jazz de Montreal, em julho de 1989, documentados em outros tantos CD gravados pela Rádio Canadá e editados pela Verve. O mais impactante é o do trio com Don Cherry e Ed Blackwell, em que os três herois do free jazz reinventam obras-primas de Ornette Coleman (The sphinxLonely womanThe blessing) e de Cherry (Art deco). 

Charlie Haden ganhou três vezes o Grammy. O seu disco em duo com o incrível guitarrista Pat Metheny, intitulado Beyond theMissouri sky (Verve), foi eleito “The best jazz instrumental performance” de 1997. Seus CDs, também da Verve, com o grande pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e o percussionista Ignacio Berroa, mais convidados ilustres (Nocturne, 2001; Land of the sun, 2004), arrebataram os gramofones de ouro do Grammy na categoria “best Latin jazz album”.

Mais recentemente, o mestre do jazz contemporâneo que nos deixou no último dia 11 registrou quatro memoráveis performances na companhia de outros cultuadíssimos jazzmen: Os dois volumes do reencontro com o pianista Keith Jarrett, em duo, em 2007, só lançados pela ECM em 2010 (Jasmine) e neste ano (Last dance); Live at Birdland (ECM), gravado no clube novaiorquino em dezembro de 2009, em quarteto com Lee Konitz (sax alto), Brad Mehldau (piano) e Paul Motian (bateria); Come Sunday (EmArcy), duo de 2010 com o inesquecível pianista bop Hank Jones, que morreria, aos 91 anos, três meses depois da sessão de gravação.

P.S.- Estes quatro últimos álbuns foram comentados e indicados neste espaço nas seguintes datas: Jasmine em 13/6/2010; Live at Birdland em 4/6/2011; Come Sunday em 4/2/2012; Last dance em 28/6/2014.

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