Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Jazz

Duo Keith Jarrett-Charlie Haden, 2º volume

Luiz Orlando Carneiro

Em março de 2007, o pianista Keith Jarrett participou, como entrevistado, de um documentário sobre o contrabaixista Charlie Haden. Os dois grandes músicos aproveitaram o reencontro para tocar um pouco em duo, bem à vontade, no estúdio da casa de Jarrett, relembrando os tempos (década de 1970) em que o pianista era patrão do baixista naquele memorável American Quartet (Dewey Redman, sax tenor; Paul Motian, bateria).

O primeiro registro dessas sessões reservadas – que felizmente foram gravadas – só foi lançado pela ECM, sob o títuloJasmine, em 2010, por ocasião do 65 º aniversário do virtuose do teclado. Foi o 41º item seguido da sua discografia para o selo de Manfred Eicher, desde Sun Bear concerts, uma série de concertos (solo) no Japão, em 1976, e que rendeu uma caixa de cinco volumes.

As oito faixas de Jasmine (comentado nesta coluna em 13/6/2010) eram meditações musicais a partir de temática acessível, transferidas para as teclas do piano e as cordas do baixo acústico pela magnífica dupla. Dentre os temas, destacavam-seBody and soulFor all you knowNo moon at all e Where can I go without you?.

ECM lança 'Last dance', complemento do aplaudido 'Jasmine' 
ECM lança 'Last dance', complemento do aplaudido 'Jasmine' 

Pois bem. No último dia 13, a ECM disponibilizou, nas lojas virtuais, o segundo volume daquelas sessões intimistas de março de 2007. O novo CD chama-se Last dance, e é um pouco mais longo (74 minutos) do que Jasmine (62 minutos). Tem também uma faixa a mais do que o primeiro volume, embora haja a repetição - em takes só um pouquinho diferentes - de doisstandards muito tocantes e caros a Jarrett: Where can I go without you? (Victor Young/Peggy Lee) e Goodbye.

Mas quem se deliciou (e ainda se delicia) com os momentos eminentemente melódicos, de profunda reflexão, de Jasminenão pode deixar de adquirir (no todo ou em parte) a sequência daquelefeliz tête-à-tête de dois músicos extraordinários que extraem de seus instrumentos, num fluir contínuo, a nota perfeita, o tom impecável.

Mas em termos de cardápio, Last dance tem dois “pratos” especiais para os jazzófilos: uma reinvenção muito original deRound midnight (9m30) – a célebre balada de Thelonious Monk – que leva Jarrett a aumentar o volume daqueles seus espasmos meio vocais, meio nasais, que são um misto de gozo e de aprovação; uma versão arrebatadora, bem bop, como não podia deixar de ser, daquela obra-prima de Bud Powell chamada Dance of the infidels (4m20).

Os velhos standards do Great American Songbook que são objeto de culto da dupla neste segundo volume – além dos “retocados” acima citados – são: My old flame (10m15); My ship (9m35), de Kurt Weill; It might as well be Spring (11m50), de Richard Rogers; Everything happens to me (7m10), aquela canção lançada por Tommy Dorsey e Frank Sinatra, na década de 1940; Every time we say goodbye (4m25), do eterno Cole Porter.

Como escreveu Victor Aaron, no site Something Else, é irrelevante saber se o álbum Last dance é, realmente, a “última dança” do par Jarrett-Haden: “A importância de Last dance, assim como de Jasmine, é que temos o souvenir de um encontro de dois velhos amigos magistrais num momento em que ambos estão ainda no topo de suas capacidades”.

Tags: coluna, jazz, luiz, orlando, texto

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.