Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Jazz

Horace Silver (1928-2014)

Luiz Orlando Carneiro

O pianista e compositor Horace Silver, que morreu na última quarta-feira, aos 85 anos, em sua casa, estava já há algum tempo afastado dos estúdios e dos clubes. Mas deixa registrada uma obra que o consagrou como uma das maiores figuras da história do jazz pós-bop.

Nascido em Connecticutt, seu pai era um imigrante de Cabo Verde, que o batizou como Horácio Ward Martins Tavares da Silva. O jovem Horácio americanizou de vez o nome, estudou saxofone e piano, foi à luta, e, ao lado do também canonizado baterista Arte Blakey e dos Jazz Messengers, tornou-se um dos founding fathers do hard bop.

No livro Obras-primas do jazz (Jorge Zahar, 1986), assim abri o capítulo dedicado à dupla Silver-Blakey:

“A condimentação bluesy que o baterista Art Blakey e o pianista Horace Silver deram ao quinteto bop clássico revigorou, na década de 50, o estilo forjado por Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thelonious Monk, 10 anos antes. A revitalização do bop foi uma reação de fundo estético e cultural à introspecção do cool jazz, que passara a merecer a preferência de uma massa considerável de jazzófilos e produtores de discos, fascinados com o new sound da Costa Oeste, tal qual transmitido por Gerry Mulligan, Chet Baker, Shorty Rogers & Cia.

O lendário pianista foi o "vovô do hardbop, como proclama o título de um dos seus melhores discos
O lendário pianista foi o "vovô do hardbop, como proclama o título de um dos seus melhores discos

Em oposição ao estilo suave e aéreo da West Coast, o estilo de Art Blakey, Horace Silver e seus mensageiros respeitava os cânones harmônicos do bop, mas realçava a expressividade fervorosa do gospel e a dolência do blues, além de expor, sem meios tons, as raízes rítmicas africanas do jazz. Hardsoulfunkygroovy foram adjetivações encontradas para ilustrar essa nova tendência do jazz”.

O primeiro marco fonográfico essencial do hard bop (A night at Birdland, selo Blue Note) foi feito numa noite de fevereiro de 1954, naquele lendário clube de Nova York, lá na esquina da Rua 52 com a Broadway. O quinteto Silver, Blakey, Cilfford Brown (trompete), Lou Donaldson (sax alto) e Curley Russell (baixo) gravou então versões bem groovy de clássicos do bop, como Night in Tunisia (Gillespie) e Confirmation (Parker).

Entre dezembro daquele ano e fevereiro de 1955, Silver e Blakey gravaram o também essencial Horace Silver and The Jazz Messengers (Blue Note), com Kenny Dorham (trompete), Hank Mobley (sax tenor) e Doug Watkins. O LP continha não um, mas cinco “hinos” do hard bop bem bluesy, da pena do pianista-compositor: The preacherDoodlin'Creepin' inTo whom it may concern e Room 608.

A carreira de Horace Silver, então com 26 anos de idade, poderia ter acabado naquela altura, e ele já teria sido um heroi do jazz (E vale lembrar que alguns “santos” do jazz morreram prematuramente, como Clifford Brown e Charlie Christian, aos 25 anos, e Fats Navarro, aos 26).

Mas Horácio Martins Tavares da Silva teve ainda mais quatro décadas de muito sucesso e de muita criatividade. Entre 1956 (Six pieces of Silver) e 1966 (The jody grind), ele lançou um total de 13 LPs no selo Blue Note, à frente de seus quintetos. Em 1965, o Horace Silver Quintet ficou ainda mais popular no planeta jazz com a edição de dois álbuns cujas faixas-título remetiam à ascendência do líder: Song for my father Cape Verdean blues (com Joe Henderson no sax tenor, e os trompetistas Carmell Jones e Woody Shaw – estes, respectivamente, em Song e em Cape).

Da década de 1990, merecem especial destaque, na sua discografia, dois CDs com sessões para o selo Impulse: The hardbop grandpop (1996) e A prescription for the blues (1997). Para o primeiro, Silver escreveu 10 composições para um timaço formado por Michael Brecker (sax tenor), Claudio Roditi (trumpete, flugelhorn), Steve Turre (trombone), Ronnie Cuber (sax barítono), Ron Carter (baixo) e Lewis Nash (bateria). No segundo, ele toca a faixa-título e outras oito peças ao lado dos irmãos Michael e Randy Brecker (trompete), mais Ron Carter (baixo) e Louis Hayes (bateria).

“Pessoalmente, eu não acredito em (meter) política, ira ou ódio em minhas composições” - escreveu Horace Silver nas notas de apresentação do seu álbum Serenade to a soul sister (Blue Note, 1968). “A composição musical deveria trazer felicidade e alegria para as pessoas”,

Horácio Ward Martins Tavares da Silva cumpriu à risca o seu credo. Requiescat in pace.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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