Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Jazz

1964: a grande safra da Blue Note Records  

Luiz Orlando Carneiro

Neste ano em que se comemora o 75º aniversário da Blue Note – a justamente célebre etiqueta especializada em jazz – aparecem, em sites e blogs (mais ou menos recomendáveis), listas diversas sobre os 10, 50 ou 100 melhores registros da gravadora fundada por Alfred Lion (1908-87). Tom Moon, autor do bestseller 1000 recordings to hear before you die (Workman Publishing), chegou a publicar, num blog da National Public Radio (NPR), uma lista comentada dos “75 greatest solos in Blue Note records history”, dividida por instrumentos.

Como sabem os jazzófilos, os primeiros discos da BN tiveram como estrelas Albert Ammons (1907-49) e Meade Lux Lewis (1905-64), mestres do boogie-woogie – aquele estilo pianístico bluesy, fortemente sincopado, surgido no Harlem. Só a partir de 1947, com os primeiros 78 r.p.m. de Thelonious Monk, Fats Navarro e Bud Powell, é que o selo passou a ser referência do chamado jazz moderno.

'Speak no evil', de Wayne Shorter, está na lista dos melhores álbuns de jazz gravados há 50 anos 
'Speak no evil', de Wayne Shorter, está na lista dos melhores álbuns de jazz gravados há 50 anos 

Mas foi na década de 1960, e mais precisamente em 1964 – portanto há meio século – que a BN consolidou o seu prestígio não só de “porta voz” do hard bop mas também daquele estilo mais cromático inaugurado por Miles Davis & Cia em Kind of blue (Columbia, 1959). E até do free jazz, que Ornette Coleman batizara, em 1960, no álbum da Atlantic do mesmo título.

Assim é que o momento é bem oportuno para uma lista pessoal – e curta - de oito álbuns obrigatórios em qualquer seleção dos mais influentes das últimas seis décadas, todos gravados pela Blue Note, no lendário estúdio de Rudy Van Gelder, no decorrer do ano de 1964.

E a lista é a seguinte:

1. Free for all, do sexteto do baterista Art Blakey (Wayne Shorter, sax tenor; Freddie Hubbard, trompete; Cutis Fuller, trombone; Cedar Walton, piano; Reggie Workman, baixo), com realce para a faixa-título, de 11 minutos, composição de Shorter. Registro de 10/2/64.

2. Out to lunch, o disco-marco de Eric Dolphy (sax alto, clarinete baixo, flauta) gravado em 25/2 (seis meses antes de sua morte prematura), ao lado de Freddie Hubbard, Bobby Hutcherson (vibrafone), Richard Davis (baixo) e Tony Williams (bateria).

3. Point of departure, momento mágico (sessão de 21/4) da música também vanguardista, mas não radical, do pianista-compositor Andrew Hill, tendo a seu lado Eric Dolphy, Kenny Dorham (trompete), Joe Henderson (sax tenor), Richard Davis e Tony Williams.

4. Empyrean Isles, quarteto do pianista-compositor Herbie Hancock (Freddie Hubbard, corneta; Ron Carter, baixo; Tony Williams), gravação de 17/6. Contém quatro peças de Hancock, entre as quais as inesquecíveis Canteloupe Island One finger snap.

5. Life Time (21 e 24/8), o brilhante debut de Tony Williams como líder, aos 18 anos, na companhia de luxo, em faixas diversas, de Sam Rivers (sax tenor), Bobby Hutcherson, Herbie Hancock, e dos baixistas Richard Davis, Gary Peacock ou Ron Carter.

6. Song for my father, com o quinteto do pianista-compositor Horace Silver (Joe Henderson, sax tenor; Carmell Jones, trompete; Teddy Smith, baixo; Roger Humphries, bateria). As quatro grandes faixas desse LP bestseller foram gravadas em 26/10 (a faixa-título, Que pasaThe kicker e The natives are restless tonight).

7. Inner urge (30/11), de Joe Henderson, em quarteto, à frente de McCoy Tyner (piano), Elvin Jones (bateria) e Bob Cranshaw (baixo). Henderson alinha-se aos grandes do sax tenor com a interpretação da faixa-título e de Isotope, ambas de sua autoria.

8. Speak no evil (sessão de 24/12), obra-prima do primoroso saxofonista-compositor Wayne Shorter, então também sidemande Miles Davis, em quinteto com Freddie Hubbard, Herbie Hancock, Ron Carter e Elvin Jones. Neste LP, além da composição que lhe deu nome, floresceram duas outras peças memoráveis: Infant eyes e Witch hunt

Tags: coluna, jazz, JB, orlando, texto

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