Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Jazz

A 'Primavera' de Sara Serpa

Luiz Orlando Carneiro

Em 12/1/2013, esta coluna comentou e recomendou o CD Aurora (Clean Feed) como uma “associação rara, no tempo e no espaço”, do velho pianista “cult” Ran Blake com a jovem e bela (em todos os sentidos) vocalista Sara Serpa, nascida em Lisboa, há 34 anos, mas que se fixou em Nova York depois de estudos no Berklee College of Music (Boston) e no New England Conservatory.

Dona de uma voz (mezzo-soprano) que o seu professor Blake considera “mágica”, cristalina como água de nascente, suas vocalizações (não confundir com scat singing nem vocalese) também impressionaram vivamente o notável saxofonista Greg Osby. Este incluiu suas cordas vocais no sexteto do álbum 9 levels (Inner Circle, 2008), e afirmou ter a cantora “uma flexibilidade e uma destreza das quais não sou testemunha há um alarmante período de tempo”.

No novo CD, vocalista portuguesa radicada em Nova York atua em duo com marido guitarrista
No novo CD, vocalista portuguesa radicada em Nova York atua em duo com marido guitarrista

Pois é a mesma etiqueta Inner Circle que vem de editar o CD Primavera, uma coleção de 14 faixas do duo formado por Sara Serpa e pelo guitarrista (e baixista elétrico) André Matos, seu marido e colega de classe no Berklee College. O casal compôs a maioria das peças, todas elas de duração inferior a quatro minutos, com exceção de Nuvem (5m30) – um dos momentos mais criativos do disco, com Matos no baixo elétrico, Serpa também ao piano e o multinstrumentalista Leo Genovese (convidado) na percussão.

Genovese tem ainda destaque, tocando melódica, em Rios (4m). Mas o convidado mais ilustre do duo é Greg Osby, que aparece num interplay com a vocalista-líder tão breve quanto notável em Choro (2m10) – com ele “vocalizando” ao máximo o sax soprano, e ela “instrumentalizando” ao máximo a voz.

É preciso logo que se explique que nem toda performance de uma cantora em que não há letras (wordless) deve ser chamada de vocalese ou de scat singing (improvisação vocal onamatopaica de que foram mestres Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan). Ovocalese, no jazz, consiste em adaptar (e cantar) letras (versos) em solos instrumentais que ficaram famosos, como fizeram os vocalistas bop (King Pleasure, Eddie Jefferson, Jon Hendriks), e como ainda fazem conjuntos vocais como o Manhattan Transfer.

No CD Primavera, Sara Serpa usa a voz-instrumento nas já citadas NuvemRios e Choro, e também na faixa-título (3m10),em Garderning (3m20) e na percussiva Kubana (2m50).

As canções com letras ou versos - escandidos sem nenhuma afetação, num rigor às vezes mais próprio à música camerística - têm como línguas o português (quatro), o inglês (três) e o espanhol (uma). São elas: as baladas Tempo (3m), com Sara também no Fender Rhodes; Caminho (3m45), “um caminho tortuoso, bifurcado”, que tem solo de baixo elétrico de André Matos, à la Steve Swallow; O guardador de rebanhos (2m40) e A realidade das coisas (2m), poemas de Fernando Pessoa (Alberto Caieiro); Song for a sister (3m30), peça de Sara, que mais uma vez se acompanha no Fender; Vanguard(2m50), tema do mestre Ran Blake; Earth (3m50), em cima de um poema do eminente vanguardista e.e.cummings (1894-1962); Se me vá laz voz (3m40), com base em arranjo de Guillermo Klein.

“Este álbum ficou bem diferente do que inicialmente esperávamos”, comenta Sara Serpa. “Tínhamos planejado gravar um duo acústico straightforward (mais convencional)...Mas à medida em que fomos nos envolvendo mais e mais com a música, começamos a experimentar, e ficamos animados com o que estávamos a criar, com novas canções nascendo nesse processo de descoberta”. 

É isto mesmo. Cada peça do álbum é uma trouvaille, numa íntima cooperação entre dois músicos que parecem mesmo feitos um para o outro.

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, texto

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.