Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Jazz

ECM lança concerto inédito de Paul Bley de 2008

Luiz Orlando Carneiro

Quando o pianista Paul Bley completou 80 anos, em novembro de 2012, longe dos festivais e dos clubes, dedicado a raros concertos solitários - geralmente em salas europeias - lembrei, nesta coluna, que o seu último CD tinha sido About time, gravado em 2007, e lançado pelo selo canadense JustinTime no ano seguinte. O disco registrava, somente, duas mais do que alentadas improvisações, a partir da faixa-título (33m30) e de Pent-up house (10m25) - este um irresistível tema de Sonny Rollins.

Também em 2007, a etiqueta alemã ECM, de Manfred Eicher, editara o álbum Solo in Mondsee, seis anos depois de terem sido gravadas, naquela cidade austríaca, num Bösendorfer Imperial, as 10 “variações” contidas no disco.

O crítico Ben Ratliff, do New York Times, foi muito feliz, quando sintetizou a arte de Paul Bley nos seguintes termos: “Profundamente original e esteticamente agressivo, Mr. Bley encontrou, há muito tempo, um caminho para expressar seus pensamentos elegantes e volumosos de um modo que implica completa autonomia (…). A música flui numa mistura de profundo conhecimento histórico e de seus próprios princípios invioláveis”.

'Paul Bley Play blue' foi gravado pelo pianista "cult" na Noruega 
'Paul Bley Play blue' foi gravado pelo pianista "cult" na Noruega 

O pianista “cult” volta agora à cena com o CD Paul Bley Play blue/ Oslo concert (ECM), disponível nas lojas virtuais desde o último dia 31/4, embora tenha sido gravado em 2008, no festival de jazz anual da capital norueguesa.

O título do álbum é um anagrama, um jogo de palavras, já que as letras de Paul Bley são as mesmas de “Play blue”. Ou seja, não se pense que naquele concerto em Oslo o pianista tenha se proposto a improvisar a partir de uma temática eminentemente bluesy, muito embora a segunda peça do recital, Way down South Suite (15m20), tenha momentos em que tal mood predomina.

Das cinco faixas do CD, a mais longa é a inicial, Far North (17m), desenvolvida, a partir de acordes em ostinato, em abstrações aparentemente sem norte. As elucubrações de Bley são mais imprevisíveis do que as ruminações melódico-harmônicas de Keith Jarrett. Numa mesma peça ele pode combinar o minimalismo de Erik Satie com a assimetria de Thelonious Monk, o lirismo de Bill Evans com os clusters tensos de Cecil Taylor. Ele é free, embora não seja desorganizado. E cultiva, em consonâncias e dissonâncias, os contrastes do “claro-escuro” que as oitavas graves e agudas do piano permitem.

Flame (7m40) e Longer (10m20) são improvisações mais, digamos, melódicas do que as já citadas. Mas nem por isso seus “episódios” têm centros tonais previsíveis ou mesmo reconhecíveis.

A conclusão do concerto – e ponto culminante do álbum - é uma “desconstrução” sensacional do Pent-up house de Sonny Rollins, com duração de pouco mais de quatro minutos, mas seguida de uma ovação (gravada) de 2m20.

Na review de Paul Bley Play blue/Oslo Concert, o respeitado jazz writer inglês Richard Williams assim adjetivou a arte do pianista nascido no Canadá, radicado nos Estados Unidos e cidadão do mundo: “Ele não hipnotiza como Keith Jarrett nos seus melhores momentos ou deixa os nervos eriçados como Cecil Taylor, mas suas performances criam um universo muito próprio no qual a substância triunfa sobre exibições óbvias de emoção ou virtuosismo”.

PRESERVATION HALL BAND NO BRASIL

O Preservation Hall foi aberto em Nova Orleans, no French Quarter, há mais de 50 anos, para preservar e reviver o primeiro estilo de jazz tal qual praticado e gravado, no início do Século 20, pelas bandas de “King” Oliver, Freddie Keppard, Kid Ory e do jovem Louis Armstrong. Quando o jazz clube começou a funcionar, lá se apresentavam sobreviventes dos primeiros tempos do estilo Nova Orleans, como o clarinetista George Lewis (1900-1968), a pianista-vocalista “Sweet” Emma Barrett (1897-1983) e o trompetista Kid Thomas (1896-1987).

O “New Orleans revival” promovido pela instituição continua até hoje, com muito sucesso, com constante renovação do plantel. E a Preservation Hall Jazz Band passa parte do ano em turnê, nos Estados Unidos e no exterior.

A atual formação da PHJB, cuja idade média é de 53 anos, faz um giro de quatro noites pelo Brasil, a partir da próxima quarta-feira (21/5), no Bourbon Street Music Club, em São Paulo. No dia seguinte, estará no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre; no dia 23 (sexta-feira) apresenta-se novamente em São Paulo, no Hebraica; no sábado (24) será a principal atração do Bourbon Festival Paraty, na histórica cidade fluminense.

Os oito músicos da PHJB são: Charlie Gabriel (sax tenor, clarinete), o mais velho da banda, com 82 anos; Ben Jaffe (tuba, baixo, banjo, percussão, diretor artístico); Rickie Monie (piano); Joseph Lastie (bateria); Clint Maedgen (saxes tenor e barítono); Freddie Lonzo (trombone); Mark Braud (trompete); Ronnel Johnson (tuba), o mais jovem do grupo, 37 anos. Todos eles funcionam também como vocalistas, em certos números.

Os integrantes da Preservation Hall Jazz Band vão aproveitar a oportunidade para promover o CD That's it (Sony Legacy), de 11 faixas, com temas originais, lançado no ano passado.

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