Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Jazz

O imprevisível Dave Douglas lança agora o quarteto Riverside

Luiz Orlando Carneiro

Os mais luminosos e influentes trompetistas do jazz destas duas últimas décadas foram – e continuam sendo – Wynton Marsalis e Dave Douglas, recém-chegados à casa dos 50 anos. O primeiro é o guardião do “fogo sagrado” da mainstream na evolução – e não na revolução - do modo de expressão musical nascido, como ele, em Nova Orleans. O segundo não rejeita o legado dos fundadores do jazz moderno, mas sua música se encaixa, perfeitamente, naquela definição do saudoso Whitney Balliett do jazz como o “som da surpresa”.

Dave Douglas é um “escultor” da massa sonora do trompete, com aquela arte que consagrou o eminente octogenário Kenny Wheeler, cujo arquivo musical foi adquirido pela Academy of Music de Londres, e aberto ao público, no ano passado, numa exposição intitulada “Kenny Wheeler: Master of melancholy and chaos”.

O primeiro grande álbum de Douglas foi A thousand evenings (RCA, 2000), marco do jazz “composicional”, livre dos grilhões da tonalidade convencional, e de temática tão variada que vai de uma versão muito original de Goldfinger a uma suíte inspirada na música klezmer judaico-balcânica. Seguiram-se a este CD registros sempre surpreendentes do trompetista-compositor, à frente de grupos tão diversos como o elétrico sexteto Keystone; o metálico quinteto com trombone, trompa e tuba de Spirit moves (Greenleaf, 2009); o combo com Jon Irabagon (sax) e Linda Oh (baixo) que gravou o lírico Be still e o harmonicamente denso Time travel (Greenleaf, ambos de 2012). Sem falar no quinteto Sound Prints, com o não menos magistral saxofonista Joe Lovano, que paulistas e cariocas puderam ouvir ao vivo, no BMW Jazz Festival do ano passado.

Novo grupo do trompetista inspira-se no interplay do Jimmy Giuffre 3 dos anos 50/60
Novo grupo do trompetista inspira-se no interplay do Jimmy Giuffre 3 dos anos 50/60

Pois bem. O irrequieto Dave Douglas está lançando (sempre no seu selo Greenleaf) o quarteto Riverside, em parceria com os irmãos canadenses Chet (saxofone, clarinete) e Jim (bateria) Doxas, mais o baixista Steve Swallow.

Com a palavra o trompetista-líder, que assim explica a gênese do novo CD Riverside:

“Depois de um longo estudo da música de Jimmy Giuffre, Chet veio falar comigo desse projeto há quatro ou cinco anos. Na época, eu já tinha escrito uma dúzia de peças pensando no Jimmy Giuffre Trio. Eu e Chet abordamos de modos diferentes o legado de Giuffre. Mas quando fizemos juntos essa música, com Jim (o irmão de Chet) na bateria, e o legendário Seteve Swallow (que teve um longo relacionamento musical com Giuffre) no baixo elétrico, pareceu-nos haver uma profunda harmonia, que se intensificou no decorrer de algumas apresentações feitas há uns dois anos atrás”.

Dave Douglas anota que suas composições para o grupo Riverside são, realmente, na base do “interplay, com elementos simples de melodia, harmonia e forma”. Ou seja, exatamente na linha dos celebrados trios de Jimmy Giuffre (1921-2008), cuja música “camerística” fluía no criativo interplay entre o clarinetista-saxofonista e seus pares (Bob Brookmeyer, trombone-Jim Hall, guitarra; ou Paul Bley, piano-Steve Swallow, baixo).

Das 11 faixas de Riverside, apenas duas foram do repertório do Jimmy Giuffre 3: a “pastoral” The train and the river (2m25), interpretada por Chet Doxas no sax tenor – e não no clarinete como nas versões originais de Giuffre – por sobre um beat bem marcado pelo baterista; Travelling light (4m25), balada lançada por Billie Holiday, em 1942, e redescoberta por Giuffre em 1958 (LP do mesmo nome, da Atlantic).

Das demais, Douglas assina seis peças: Thrush (6m40), animado diálogo dos horns, com um criativo interlúdio sem o apoio da bateria; Big Shorty (6m45), em clima bem bluesy; a meditativa Front yard (3m55), na qual o pistonista faz uso da surdina, e Chet troca o sax pelo clarinete; Backyard (7m15), também com o tempero do blues e muito swing; a fulgurante Hand written letter (6m05); No good with you (6m05), uma paráfrase de All of me, na qual Douglas e Chet Doxas se espalham.

O saxofonista-clarinetista canadense assina duas belas pequenas suítes. Old church/ New paint tem como introdução (2m) um solo do baixo elétrico do grande Steve Swallow, sempre dedilhando o instrumento como se guitarra fosse, e uma segunda parte (4m25) com solo de Chet em “feitio de oração”. Sing on the mountain/ High Northern miner (11m55), a última faixa do CD, começa um tanto solene e “descritiva”, totalmente escrita, para só depois de cinco minutos se abrir aos solos improvisados de Douglas e de Chet Doxas, com crescente aquecimento de Jim Doxas e Steve Swallow.

JOSÉ DOMINGOS RAFFAELLI

Faço minhas as palavras de Mauro Nahoum, motor do blog CJUB, ao comunicar aos amigos jazzófilos a morte, no último dia 26, aos 77anos, do querido José Domingos Raffaelli:

“Neste momento, só posso dizer que o seu passamento vai deixar, na vida cultural nacional, uma lacuna bem profunda, um prejuízo irrecuperável não só para a comunidade dos apreciadores do jazz – sua maior paixão – como para os demais gêneros de música de boa qualidade. Fez uma admirável legião de amigos entre os músicos, que tiveram nele tanto um incentivador como um guia para suas carreiras na música instrumental no país. Que descanse em paz num Paraíso próprio cuja trilha sonora seja jazz, estilo de música que tanto amou”.

Fomos amigos desde o início da década de 1960, quando fundamos – à frente Jorge Guinle – o Clube de Jazz e Bossa, que se reunia no Golden Room do Copacabana Palace, um sábado por mês, com música provida, à vontade, na base da jam session, por músicos então ativos no underground do Beco das Garrafas (Bottle's, Little Club) como Serginho Mendes, Luizinho Eça, Tenório Junior, Aurino, e até o veterano saxofonista soprano Booker Pittman (1909-1969), que chegou a tocar com Louis Armstrong, mas que se fixou no Rio, ao render-se aos encantos de Ophelia, mãe de Eliana, a cantora, que adotou o sobrenome do padrasto.

Convidei Raffaelli para assinar a coluna de jazz do “caderno B” do “Jornal do Brasil”, em 1972, quando eu ocupava o cargo de Editor de Notícias. Em 1987, ele passou para “O Globo”, onde permaneceu até 2002 por que o novo editor daquele jornal decidiu que o jazz não merecia mais o espaço de uma coluna.

A convite de Jorge Zahar, eu e Raffa escrevemos, em 2000, o livrinho Guia de Jazz em CD, uma discoteca básica (265 pp), que teve a segunda edição atualizada publicada em 2002. Dividimos, meio a meio, o que consideramos o cream of the cropdos registros de 155 músicos de maior expressão na história do jazz, até aquela época. Mas ele fez questão – com todo o direito – de “ficar” com os verbetes de Louis Armstrong, Duke Ellington, Lester Young, Art Tatum, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. E também de alguns músicos underrated pelos quais tinha um xodó todo especial, como os saxofonistas Wardell Gray (1921-55) e Serge Chaloff (1923-57). Em compensação, fiquei com o bloco dos mais vanguardistas (Ornette Coleman, John Coltrane, Cecil Taylor, Steve Lacy). E ainda consegui um Miles Davis em troca de um Gil Evans. A seleção dos melhores CDs dos jazmmen brasileiros ficou por conta de Raffaelli – de Hélio Alves a Claudio Roditi, passando por Victor Assis Brasil, Hélio Delmiro, Eliane Elias, Dick Farney, dentre outros que ele apreciava especialmente, e conhecia muito bem.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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