Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Jazz

Regina Carter revive a música que os avós ouviam no Deep South

Luiz Orlando Carneiro

Em 2002, Regina Carter mereceu a suprema honra de gravar um disco (Paganini after a dream, Verve) no violino manufaturado, em 1743, por Guarneri del Gesu, para Nicolò Paganini. O preciosíssimo instrumento, conhecido como Il Cannone, fica entesourado em Gênova, e só é retirado de sua vitrine de vidro blindado, no Palazzo Doria-Tursi, em ocasiões muito especiais, para concertos de renomados virtuoses.

Oito anos depois, aquela que é a maior estrela do violino no jazz desde Stéphane Grappelli (1908-1997) voltou a fazer sucesso com um álbum de enredo bem diverso daquele sonho tornado realidade em Gênova. Carter gravou – na companhia de Adam Rogers (guitarra), Gary Versace (acordeão), Alvester Garnett (bateria) e percussionistas africanos – Reverse thread(E1 Music), no qual incorporou a temática e algo da magia rítmica da África às suas sofisticadas tramas melódico-harmônicas.

Agora, aos 46 anos, a violinista enriquece a sua discografia com outro CD “investigativo” de suas raízes, este da ancestralidade mais próxima. O recém-lançado Southern comfort – o seu debut no selo Sony Masterworks – é o resultado de um “mergulho” nos registros feitos no Sul dos Estados Unidos (field recordings) pelo folclorista Alan Lomax (1915-2002), que estão arquivados na Biblioteca do Congresso americano. Lá ela colheu pérolas raras daquele tipo de música negra – folksongssipritualsbluesgospel e country (“caipira”) em geral – que seus avós ouviam lá nos rincões do Alabama.

Virtuose que já gravou no violino de Paganini lança 'Southern comfort' (Sony Materworks) 
Virtuose que já gravou no violino de Paganini lança 'Southern comfort' (Sony Materworks) 

Para esta fusão do espírito do jazz moderno com aquela música às vezes dançante, às vezes melancólica, que os fiddlersnegros tocavam no Deep South, há mais de 100 anos, a virtuose do violino cercou-se dos seguintes instrumentistas, todos eles versáteis “músicos para músicos”: Adam Rogers e Marvin Sewell (guitarras); Chris Lightcap ou Jess Murphy (baixo); Alverster Garrett (bateria); Will Holshouser (acordeão).

Quase todos eles assinam os arranjos das 11 peças do álbum, que começa com Miner's child (5m), dedicada por Regina Carter ao seu avô paterno, que trabalhava numa mina de carvão, e que ela não chegou a conhecer. A última faixa, Death have mercy/Breakaway (8m20), a mais longa da seleção, é um medley dos dois temas tradicionais, tem o arranjo assinado pelo grande vibrafonista Stefon Harris (que não participa da sessão como instrumentista), e é uma síntese celebratória do próprio CD, com as guitarras bem bluesy, palmas e o fervor do gospel.

“Eu realmente queria, em todas estas peças, preservar a natureza crua e a beleza do que ouvi (referência aos registros de Alan Lomax) – porque a beleza estava nessa crueza”, ressaltou a própria violinista ao falar da concepção do disco.

O seu objetivo foi atingido de forma encantadora em todas as outras faixas do álbum, com menções muito especiais paraShoo-rye (7m20), uma simples cantiga infantil; Blues de Basile (4m35); Honky tonkin' (3m50), cuja performance chega a lembrar coisas “harmolódicas” do Ornette Coleman dos anos 70; e See see rider (5m10), blues que ficou popular em 1925, quando foi gravado por “Ma” Rainey (1886-1939).

O crítico Brent Faulkner, do site Popmatters, destacou Southern comfort como um disco “polido, incrivelmente inteligente”, candidato a figurar nas futuras listas dos melhores CDs do ano. Para Thom Jurek, do All Music, Carter trata o material selecionado por Alan Lomax “com curiosidade pessoal e histórica, e também com honestidade emocional”.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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