Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

Jazz

Craig Handy cria fusão moderna do soul jazz e das brass bands

Luiz Orlando Carneiro

O saxofonista Craig Handy começou a se destacar, no início da década de 1990, no conjunto Mingus Dinasty, concebido pela viúva de Charles Mingus (1922-79), Sue, para manter viva e revigorada a obra daquele que foi o ponto culminante do expressionismo no jazz, como compositor, arranjador e ás do contrabaixo. Desde então, Handy continuou fiel à Mingusiana, não só como integrante daquele sexteto mas também da espetacular Mingus Big Band (As duas formações tocam, há anos, sempre às segundas-feiras, no Jazz Standard, um dos clubes mais in de Manhattan). Na condição de sideman – nos saxes tenor, alto, soprano ou na flauta – ele gravou com Art Blakey, Joe Henderson, Abdullah Ibrahim, entre outros luminares do jazz pós-bop. Mais recentemente, no sax alto, vem atuando no festejado septeto The Cookers, ao lado de Billy Harper (sax tenor), David Weiss e Eddie Henderson (trompetes), George Cables (piano), Billy Hart (bateria) e Cecil McBee (baixo).

Esta introdução é para apresentar e recomendar o original e envolvente álbum de Craig Handy, na condição de líder, recém-lançado pela renascida etiqueta Okeh, e intitulado 2nd line Smith.

'2nd line Smith' é o título do novo CD da banda do saxofonista
'2nd line Smith' é o título do novo CD da banda do saxofonista

O título do CD de 10 faixas é um código que exprime a concepção do projeto, assim detalhado pelo próprio músico: “É osongbook de Jimmy Smith (o célebre especialista do órgão elétrico Hammond B-3) reimaginado numa mistura altamente energética de um quinteto de jazz contemporâneo com uma brass band, no ritmo second line”.

Nas brass bands que percorriam (e ainda percorrem) as ruas de Nova Orleans, a first line é integrada pelos músicos e os “dirigentes” das entidades. A second line é a turma - separada por uma corda - que vai atrás, praticamente dançando ao som dessas bandas. O ritmo arrastado, mas bem sincopado, com aquele Latin tinge de que falava Jelly Roll Morton, é o 2nd line.

A banda do novo álbum do saxofonista Craig Handy tem Kyle Koehler (órgão Hammond B-3), Matt Chertkoff (guitarra), Clark Gayton (sousaphone, aquela pequena tuba cujo nome vem de John Philip Sousa) e três grandes bateristas que se revezam: Jason Marsalis e Herlin Riley, nascidos e criados em Nova Orleans, e Ali Jackson, esteio da Lincoln Center Jazz Orchestra. Dois ilustríssimos convidados participam da sessão: o trompetista sans pareil Wynton Marsalis, que aparece em Mojo workin'(6m55), um blues de Muddy Waters (1913-1983), com vocal de Clarence Spady; e a vocalista Dee Dee Bridgewater, estrela de uma versão vibrante, com scat singing, de On the sunny side of the street (4m10).

Como se sabe, Jimmy Smith (1928-2005) aliou a alma (soul) do blues às harmonias do bebop, gravando abundantemente para a Blue Note (até 1962) e para a Verve (1963-68), exibindo técnica e balanço notáveis nos teclados do B-3, e usando os pedais como se tap dancer fosse.

No álbum 2nd line Smith – no qual o vigoroso saxofone tenor de Craig Handy comanda essa fusão do soul jazz dos anos 60 com os ecos das paradas de Nova Orleans – são recriados três temas originais de Jimmy Smith: High heel sneakers (5m55),Ready'n able (5m30) e Mellow mood (4m40) – este com o líder no sax soprano. Mas estão também no mesmo clima as demais faixas: Organ grinder's swing (4m55); Minor chant (4m42), do saudoso e também exuberante saxofonista Stanley Turrentine; O.G.D. aka Road song (4m25), de Wes Montgomery; I'll close my eyes (4m45), que contém o mais belo solo do saxofonista-líder.

É claro que esse CD de jazz moderno que remete a Jimmy Smith e a Nova Orleans não poderia ser tão irresistível sem o B-3 de Koehler, o sousaphone de Gayton e os drums de Jason, Ali e Herlin. 

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, orlando, texto

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