Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Jazz

Warner lança no Brasil pacote de 10 CDs com joias da Atlantic Records (1957-76)

Luiz Orlando Carneiro 

Os jazzófilos mais antigos e os newcomers que não se contentam com “músicas” selecionadas e arquivadas, sem muito critério, nos seus players têm uma oportunidade inesperada de enriquecer suas discotecas. É que, em parceria com a Delira, aqui no Brasil, a Warner vem de lançar um pacote de 10 álbuns originalmente editados em LPs, quase todos pela Atlantic Jazz, entre 1957 e 1976, com sessões lideradas pelas seguintes estrelas: Charles Mingus, o trombonista Frank Rosolino, as vocalistas Betty Carter e Carmen McRae, Duke Ellington, John Coltrane, Joe Zawinul, Gil Evans, Keith Jarrett e Dave Brubeck.

Os CDs estão disponíveis, a R$ 32,50 cada, na Arlequim (www.arlequim.com.br) – uma rara e bem sortida loja de discos e DVDs de jazz e de música erudita, situada na Praça Quinze, no centro histórico do Rio de Janeiro.

Desta preciosa coleção, quatro discos merecem destaque especial, em face de suas qualidades intrínsecas e/ou importância histórica. São eles: The clown (1957), do baixista-compositor Charles Mingus, à frente do quinteto com Jimmy Knepper (trombone), Shafi Hadi (sax alto), Wade Legge (piano) e o fiel Dannie Richmond (bateria); The avant-garde (1960), duas sessões com John Coltrane (saxes tenor e soprano), Don Cherry (trompete), Ed Blackwell (bateria) e baixo (Charlie Haden ou Percy Heath); Afro-bossa (1963), da orquestra de Duke Ellington-Billy Strayhorn; Svengali (1973), do arranjador-compositor Gil Evans (também nos pianos acústico e elétrico), à frente de sua orquestra.

Destaques são Charles Mingus, Duke Ellington, John Coltrane e Gil Evans
Destaques são Charles Mingus, Duke Ellington, John Coltrane e Gil Evans

The clown, que Charles Mingus gravou um ano depois do revolucionário Pithecantropus Erectus, consolida a genialidade de sua música expressionista e passional, com ampla liberdade para os solistas, sobretudo em faixas como Haitian fight song(11m55), uma veemente interpretação dos blues, e Reincarnation of a lovebird (8m30), um tributo a Charlie “Bird” Parker, com realce para o sax alto de Hadi.

O LP de 1960 The avant garde é como se fosse do quarteto de Ornette Coleman, com Coltrane em seu lugar. Os outros três músicos eram os partners habituais de Ornette à época em que, com o seu sax alto, “solenizou” o free jazz, no álbum-marcoFree jazz (também da Atlantic). Ou seja, Don Cherry, Ed Blackwell e Charlie Haden. O registro Coltrane-Cherry foi feito seis meses antes de Free jazz, e contém três temas de Ornette: The blessing (7m50), Focus on sanity (12m05) e The invisible(4m05).

Afro-bossa não é – como dá a entender o título – uma “visão” ellingtoniana da bossa nova, que estava muito em moda naqueles anos 60. Trata-se de uma coleção de peças curtas de coloração rítmica afro-caribenha, como Purple gazelle(2m40), que o Duke descreveu como “um ragtime-cha-cha-cha”, e a bem percussiva Tigress (3m05), de Billy Strayhorn. Ainda estavam na “The orchestra” aqueles músicos que se dedicaram de corpo e alma à instituição, por longos anos (os trompetistas Cootie Williams, Ray Nance e Cat Anderson; os saxofonistas Johnny Hodges, Paul Gonsalves e Harry Carney; o baterista Sam Woodyard).

Gil Evans (1912-1988) foi o grande arranjador-chefe de orquestra “impressionista” do jazz, e ficou célebre com a série de suítes que escreveu para Miles Davis: Miles ahead (1957), Porgy and Bess (1958), Sketches of Spain (1960) e Quiet nights(1962-63). Como compositor-chefe de orquestra, sua obra-prima foi Out of the cool (1960). No álbum Svengali (anagrama de Gil Evans), gravado ao vivo na Trinity Church, Nova York, o maestro empregou recursos eletrônicos com discrição, em peças de sua lavra (Zee Zee), de George Russell (Blues in orbit), de Gershwin (Summertime) e do saxofonista Billy Harper, que também atua como solista (Cry of hunger e Thoroughbred).

BMW JAZZ FESTIVAL

No seu quarto ano de existência, o BMW Jazz Festival (São Paulo e Rio de Janeiro, entre 29 de maio próximo e 1º de junho) confirma a sua condição de único do gênero no país à altura dos melhores festivais europeus. As principais atrações anunciadas para os palcos das casas de shows HSBC (29, 30 e 31 de maio) e Vivo Rio (30, 31 de maio e 1º de junho) serão as seguintes: o vocalista-fenômeno Bobby McFerrin; o pianista Ahmad Jamal, 83 anos, mago das 88 teclas, cercado dos fieis Manolo Badrena (percussão), Herlin Riley (bateria) e Reginald Veal (baixo); o grande baixista-compositor Dave Holland, à frente do seu novo quarteto Prism, mais sônico e eletrificado do que os seus combos anteriores, com Graig Taborn (piano e Fender Rhodes), Kevin Eubanks (guitarra) e Eric Harland (bateria); Kenny Garrett, o mais dinâmico e criativo sax alto da geração nascida nos anos 60 – aquela dos young lions; o trompetista Chris Botti, que continua com a mesma cara de garoto, aos 51 anos, e cultiva um pop jazz, que lhe garantiu fama e um Grammy 2013, na categoria “best pop instrumental album”.

O BMW Jazz Festival tem a direção artística de Monique Gardenberg, da Dueto Produções, e, na curadoria, Zuza Homem de Mello e Zé Nogueira.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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