Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Jazz

Pianista George Cables reaparece em trio

Luiz Orlando Carneiro

No panteão dos 10 maiores pianistas de jazz de todos os tempos estarão sempre virtuoses “canonizados” como Art Tatum, Bud Powell, Oscar Peterson e Bill Evans. Ou os ainda ativos McCoy Tyner, Keith Jarrett, Chick Corea, Herbie Hancock e Ahmad Jamal.

Contudo, há muitos outros pianistas que sempre mereceram a admiração e o culto dos mais exigentes jazzmen, críticos e jazzófilos. Mas que não receberam o que os músicos chamam de overdue ovation, ou seja, a calorosa ovação pública a eles devida como mestres consumados do teclado.

Dentre estes, destacam-se Cedar Walton (1934-2012), Mulgrew Miller (1935-2013) e George Cables (que fará 70 anos em novembro deste ano). Todos eles foram, nas décadas de 70 ou de 80, durante mais ou menos tempo, integrantes do conjunto Jazz Messengers, do lendário baterista Art Blakey. Mas também brilharam como sidemen de luxo de outras grandes figuras do jazz (Dexter Gordon, Art Pepper, Sonny Rollins, Art Farmer, Benny Golson), e como líderes de seus próprios trios.

CD 'Icons and influences' homenageia também Cedar Walton e Mulgrew Miller
CD 'Icons and influences' homenageia também Cedar Walton e Mulgrew Miller

A tríade Walton-Miller-Cables torna-se, ao mesmo tempo, passado próximo e atualidade com a edição do álbum Icons and influences (HighNote), gravado pelo trio de George Cables, em setembro do ano passado, quatro meses depois do ataque cardíaco que provocou a morte de Mulgrew Miller – que tive o prazer de conhecer e ouvir, em noites memoráveis de Ouro Preto, Nova York e Paris.

No novo CD, o trio de Cables (Dezron Douglas, baixo; Victor Lewis, bateria) interpreta 12 composições, das quais logo as duas primeiras, assinadas pelo líder, intitulam-se Cedar Walton (4m35) - lembrança, em tempo allegro vivace, do ícone declarado jazz master pela National Endowment of Arts em 2010 – e Farewell Mulgrew (6m50) – uma espécie de réquiem por seu amigo e reconhecida influência, que morreu mais cedo do que se esperava. O primoroso pianista escreveu tambémHappiness (6m25), tema desenvolvido com harmonia e fraseado que remetem a Bud Powell, founding father do bebop.

As outras peças de autoria de eminentes figuras do jazz selecionadas por George Cables para Icons and influences são as seguintes: The Duke (7m25), joia do repertório de Dave Brubeck dedicada ao ícone Duke Ellington; Come Sunday (7m05), o clássico de Ellington extraído da suíte Black, brown and beige, de 1943; Blue heart (2m35), do saxofonista Benny Golson;Little B's poem (6m35), do vibrafonista Bobby Hutcherson, que também foi patrão de Cables; Isotope (5m15), da pena do saxofonista Joe Henderson, faixa constante do seu antológico LP Inner urge (Blue Note, 1964); Very early (6m30), uma das mais memoráveis composições do pianista Bill Evans.

O trio do ilustre pianista executa ainda versões originais de dois standards bem conhecidos: Nature boy (6m55), canção que Nat “King” Cole introduziu em 1948, e The very thought of you (6m35), sucesso de Ray Noble, de 1934. O tema restante,Mo'Pan (5m35), é uma espécie de calipso.

Este último álbum de George Cables não precisaria ter nenhuma referência ou qualquer deferência a influências e ícones para ser uma aula magna de mais de 70 minutos de jazz piano trio. O pianista – muito bem acolitado pelo veterano Victor Lewis e pelo ainda jovem Dezron Douglas - está no ápice de sua arte, no top of his game. Tão “jovem” e criativo como em 1977 – quando brilhou como o número dois do quarteto do saxofonista alto Art Pepper numa série de noites inesquecíveis documentada na coleção Art Pepper: The complete Village Vanguard sessions (Contemporary).

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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