Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Jazz

Marcos Ariel toca Parker, Monk e Coltrane em CD solo

Luiz Orlando Carneiro

Uma lista dos melhores pianistas brasileiros de jazz não pode deixar de incluir David Feldman, André Mehmari e Hélio Alves – este último radicado em Nova York desde 1993, depois de formado no célebre Berklee College of Music de Boston.

E muito menos Marcos Ariel, carioca de Botafogo, que burilou o seu talento em estudos formais, e iniciou a carreira profissional em 1976 (também como flautista) no grupo Cantares, sempre procurando enriquecer com a deliciosa receita caseira do choro, do samba, da “valsa de esquina” e até do baião, o modo de expressão musical chamado jazz, tal como cultivado por mestres como Bud Powell, Thelonious Monk, Lennie Tristano e McCoy Tyner.

Ariel e os tecladistas brasileiros acima citados não produzem – em estúdio ou ao vivo, em shows exclusivos ou festivais – aquele tipo de jazz samba bonitinho, fast food. Eles fazem samba jazz (reparem que, aqui, a palavra jazz é o substantivo, e não o adjetivo) de alta qualidade, não só como intérpretes mas também como compositores e arranjadores.

'Jazz Carioca', editado pela Biscoito Fino, é o ponto alto da carreira do pianista
'Jazz Carioca', editado pela Biscoito Fino, é o ponto alto da carreira do pianista

Marcos Ariel vem de lançar, no selo Biscoito Fino, o seu 26º disco, intitulado Jazz carioca/Solo piano, que é o álbum definitivo do virtuose, a sós com o seu Steinway.

Há mais de 12 anos, ele tinha gravado, solo, a sua “tese de doutorado”: Piano com Tom Jobim (Humaitá Music), uma seleção de 13 gemas do “cara” de Ipanema, orgulho do Brasil e cidadão do mundo. Nas notas daquele CD, José Domingos Raffaelli escreveu: “Com este trabalho requintado, Marcos Ariel chega ao final do século como um artista maduro, consciente e vitorioso, cuja experiência e categoria garantiram-lhe uma posição de relevo sem que precise provar coisa alguma. É a obra de um criador que a cada dia refina a sua arte”.

Em Jazz Carioca, Ariel não pretendeu “provar coisa alguma”. Mas, no fundo, qualquer jazzman de seu quilate quer sempre provar, a si mesmo, que é capaz de dar vida nova - com base em receituário próprio e impactante - a composições (con)sagradas e, portanto, tidas como “imexíveis”.

E o pianista-arranjador conseguiu atingir este objetivo, plenamente, no novo CD solo, em execuções magistrais e destemidas de quatro obras-primas do cânone jazzístico moderno: Blue Monk (4m40) e Round midnight (5m20), de Thelonious Monk;Giant steps (2m30), de John Coltrane; e Donna Lee (3m35), a vertiginosa paráfrase em fugato de Indiana, escrita por Charlie Parker. Ariel escolheu ainda três temas de eminentes figuras do jazz, tratados com requinte harmônico muito especial: Ana Maria (5m50), a balada que Wayne Shorter escreveu em memória de sua mulher portuguesa, que morreu na queda de um avião da TWA, em Nova York, em 1996; Falling grace (3m), do baixista Steve Swallow, companheiro e sideman de Carla Bley;Journey to Recife (3m20), de Bill Evans, no balanço da bossa nova.

Os originais de Marcos Ariel são: Músico no parque (5m), de bela melodia divagante, que vai sendo aquecida até chegar àquele clima eruptivo tão a gosto do pianista; Ponteio da manhã (4m20), tour de force inspirado num “exercício” recomendado por Hermeto Pascoal, que realça a mão esquerda totalmente independente e infatigável do virtuose das 88 teclas; a encantadora Valsa para Alice (4m15), dedicada à sua filha.

A propósito da excepcional técnica reafirmada neste álbum - que é bem mais do que simplesmente Jazz Carioca - o próprio Ariel explica: “Sempre procurei utilizar a técnica da música erudita nos meus arranjos e interpretações (…). Naturalmente, fui encontrando uma forma de conseguir uma independência da mão esquerda, para improvisar à vontade com a mão direita”.

Sobre a escolha dos temas de Monk, Parker, Coltrane, Wayne Shorter, Steve Swallow e Bill Evans, o pianista comenta: “Todos os clássicos que escolhi são temas desafiadores. E até uma forma de estudar o instrumento”.

Faltou dizer que, no novo CD, ainda houve lugar para um standard bem conhecido, lá da década de 1950. Invitation (6m05) é pretexto para um diálogo encantador entre as duas mãos do grande pianista.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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