Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Jazz

O dream quartet do veterano Billy Hart

Luiz Orlando Carneiro

Billy Hart, 73 anos, lenda viva da bateria jazzística, tem no seu extenso currículo, desde a década de 1960, associações com outros lendários músicos, tais como o organista Jimmy Smith, o guitarrista Wes Montgomery e o saxofonista Stan Getz. Tempos depois, ele participou decisivamente do “renascimento” do também icônico Charles Lloyd, promovido pelo selo ECM, como membro do quarteto do saxofonista tenor em The call (1993), All my relations (1994) e Canto (1996), e do quinteto que gravou Lift every voice (2002).

Na condição de líder, o baterista-compositor formou um dream quartet com Mark Turner (sax tenor), Ethan Iverson (piano) e Ben Street (baixo), com o qual lançou – também no refinado selo de Manfred Eicher – o álbum All our reasons (2011). E o mesmo combo reaparece agora, sempre na ECM, com o CD One is the other, gravado em sessões de abril e maio do ano passado.

Baterista lança 'One is the other', com Mark Turner no sax tenor
Baterista lança 'One is the other', com Mark Turner no sax tenor

O quarteto de Billy Hart funciona de modo cooperativo e interativo na criação e na interpretação das oito faixas do disco, de pouco mais de 50 minutos de duração. Hart escreveu Teule's Redemption (7m20), a polirrítmica Yard (5m05) e a mais líricaAmethyst (8m05) – esta a faixa-título do seu álbum em sexteto editado pela Arabesque, em 1993. A estética do baterista-líder em One is the other é semelhante à do mago Paul Motian (1931-2011), com suas pontuações percussivas pontilhistas, nossnare drums e nos pratos, às vezes em clima camerístico.

Mark Turner e Ethan Iverson ascenderam ao estrelato no início da década passada como timoneiros de dois relevantes trios. O primeiro no especulativo Fly (Larry Grénadier, baixo; Jeff Ballard, bateria); o segundo no hiperativo e rockish trio The Bad Plus (Dave King, bateria; Reid Anderson, baixo).

No contexto do novo álbum do quarteto de Billy Hart, Turner e Iverson encontram campo livre para suas especulações, em solos ou até mesmo em contraponto, como nas passagens em fugato de Lennie groove (6m50) - a peça inicial do CD, de autoria de Turner, homenagem explícita às concepções cerebrais de Lennie Tristano, genial explorador da estrutura harmônica do material temático. O saxofonista também assina Sonnet for Stevie (8m40), a faixa mais longa da sessão, sendo Wonder o Stevie do título, embora o mood da peça não tenha nada de pop-soul.

O pianista Iverson – sempre admirável em termos de técnica, swing e inspiração – escreveu Maraschino (5m50), de saborbluesy, e a mais movimentada Big trees (4m10), com realce para um solo do líder Hart.

Some enchanted evening (5m15), de Richard Rodgers – do antiquíssimo musical South Pacific (1947) – é o único tema retirado do American songbook. Tem o tratamento apropriado de balada, e é veículo para emotiva performance do saxofonista Turner. 

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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