Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Jazz

Jane Ira Bloom volta a brilhar em álbum de baladas

Luiz Orlando Carneiro

O sax soprano nasceu para o jazz com Sidney Bechet (1897-1959), que sentiu necessidade de se expressar num instrumento mais potente que o clarinete, do qual também foi mestre. Mais adiante, o genial saxofonista tenor John Coltrane (1926-67) deu uma nova dimensão ao soprano, em interpretações antológicas de My favorite things e Greensleeves. Steve Lacy (1934-2004) foi o primeiro grande jazzman a eleger o straight sax como o único meio ideal de expressar a sua música de vanguarda. Nos últimos anos, o veterano Wayne Shorter – considerado o maior saxofonista vivo, ao lado de Sonny Rollins – vem se dedicando cada vez mais ao soprano, à frente do seu hipnótico quarteto Footprints.

A revista JazzTimes publica, na edição deste mês de março, a seleção feita por 30 dos seus 30 colaboradores dos melhores músicos em atividade nos seus respectivos instrumentos. Na divisão dos sopranistas, os quatro mais votados foram, pela ordem, Wayne Shorter, Branford Marsalis, Dave Liebman e Jane Ira Bloom.

Virtuose do sax soprano lidera quarteto em Sixteen Sunsets
Virtuose do sax soprano lidera quarteto em Sixteen Sunsets

Não é de hoje que Jane Ira, 58 anos, é apreciada e aplaudida por sua dedicação exclusiva ao sax soprano. Desde quando se graduou em Yale, e estudou no Berklee College, de Boston, com o emérito professor Joe Viola.

Do meu livro Elas também tocam jazz (Jorge Zahar Editor, 1989), retiro o seguinte trecho do capítulo dedicado à já então destacada saxofonista-compositora:

“Clareza de som, sem qualquer apelo aos 'orientalismos' fáceis que o soprano propicia; um lirismo intenso, melodicamente linear, num contexto mais livre do que sinalizado; coloração harmônica rica, mas sutil, na interação com seus parceiros – estas são algumas características de Bloom (...)”.

Depois de um período e alguns discos em que se deliciou em empregar recursos eletrônicos (Slalom, Columbia, 1988; Art and aviation, Arabesque,1992), ela gravou, em 1996, o magnífico CD The nearness (Arabesque), no comando de um sexteto com Kenny Wheeler (trompete), Fred Hersch (piano) e Julian Priester (trombone).

Jane Ira reaparece agora, no auge de sua arte, no álbum Sixteen sunsets (Outline), em quarteto com os craques Matt Wilson (bateria) e Cameron Brown (baixo), mais o jovem pianista Dominic Fallacaro, da turma do Brooklyn.

O título dessa coleção de 14 faixas – nove baladas do American songbook e cinco outras peças, também meditativas, da pena da pianista – é tirado de uma observação do astronauta americano Joseph Allen sobre o “céu” nas alturas siderais: “Cada nascer do sol e cada poente (sunset) dura apenas poucos segundos (...). E você vê 16 alvoradas e 16 ocasos, diariamente, quando se está no espaço. E nenhum sunrise ou sunset é sempre o mesmo”.

A saxofonista – com a discreta, mas permanente contribuição de sua tripulação – evolui a partir ou em torno de temas bem conhecidos, buscando revelar, acentuar ou sombrear colorações sonoras estreitamente ligadas às melodias originais. É ela quem diz: “Eu cresci ouvindo essas canções, e sabendo suas letras (…). Tocá-las, para mim, é como respirar. Com o passar do tempo, ficou mais fácil deixar o significado das canções brotar do saxofone”.

Os standards interpretados em Sixteen sunsets por Jane Ira e seus acompanhantes (o pianista Fallacaro tem bastante espaço) são: For all we know (5m), de Donny Hathaway; I loves you, Porgy (7m10), de Gershwin; Darn that dream (6m25), de Van Heusen; Good morning heartache (5m15), clássico de Billie Holiday; Out of this world (6m20), de Harold Arlen; Left alone(7m35), de Billie Holiday; The way you look tonight (4m25), de Jerome Kern; But not for me ( 5m40), de Gershwin; My ship(2m40), de Kurt Weill.

As peças escritas pela virtuose do sax soprano são: Gershwin's skyline (na verdade uma introdução a I loves you, Porgy);What she wanted (7m45), a mais longa do álbum; Ice dancing (4m30), em tempo médio, e não propriamente uma balada clássica; Primary colors (4m30); Too many reasons (4m30); Bird experiencing light (5m25).

As faixas de Sixteen sunsets não podem ser definidas como “noturnos” jazzísticos para sax soprano e seção rítmica, embora o clima predominante da sessão seja, digamos, vespertino. O som de Jane Ira Bloom é luminoso. E o seu fraseado lírico – mas jamais sentimentaloide – é encantatório.   

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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