Jornal do Brasil

Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Jazz

'Time's tales': registro primoroso da globalização do jazz

Luiz Orlando Carneiro

O refinado baterista-compositor Jeff Ballard, 50 anos, consolidou o seu prestígio na cena jazzística como um terço do celebrado trio do pianista Brad Mehldau e do terceto cooperativo Fly - neste, ao lado de Mark Turner (sax tenor) e Larry Grenadier (baixo). Com Mehldau, gravou quatro CDs para a Nonesuch: Day is done (2005), Live (2008), Ode (2012) e Where do you start (2012). Com o trio Fly, registrou Fly (Savoy, 2004), Sky & country (ECM, 2009) e Year of the snake (ECM, 2012).

Ballard vem de lançar, agora, o álbum Time's tales (Okeh), como líder de um trio muito especial, a partir de três aspectos: o trio não tem contrabaixo, instrumento que costuma fornecer a pulsação contínua dos jazz combos; à bateria do líder somam-se o saxofone alto de Miguel Zenón e a guitarra de Lionel Loueke; Ballard nasceu na California e radicou-se em Nova York, Zenón é portoriquenho e Loueke veio à luz no Benin, de pai e mãe africanos.

Zenón (sax), Loueke (guitarra) e Ballard (bateria) formam combo trinacional 
Zenón (sax), Loueke (guitarra) e Ballard (bateria) formam combo trinacional 

Ou seja, as 10 faixas de Time's tales refletem a globalização sempre crescente do jazz como modo de expressão musical. E também a coexistência pacífica – num mesmo momento de intensa criatividade - do vanguardismo e da mainstream, dobackbeat eletrificado e da sutileza bartokiana, do ritmo caliente do Caribe e do lirismo de uma balada de Gershwin.

E, finalmente, trata-se de um pequeno conjunto integrado por jazzmen do primeiro escalão, no ápice de suas carreiras. Zenón, 37 anos, foi o quarto colocado na sua especialidade (sax alto) no último poll dos críticos da revista Downbeat, atrás apenas de Rudresh Mahanthappa, Ornette Coleman e Tim Berne. Loueke, 40 anos, foi o sexto mais votado na lista dos guitarristas, depois dos imbatíveis Bill Frisell e Pat Metheny, mais Mary Halvorson, Marc Ribot e Russell Malone.

As três primeiras faixas do CD Time's tales têm intensas e diferenciadas acentuações rítmicas: Virgin forest (7m15), peça de Loueke de batida funky; Western wren/A bird call (3:20) e Beat street (7:15), esta de Ballard, ambas polirrítmicas e tendentes à politonalidade, com o sax alto de Zenón em vôos vertiginosos similares aos de Ornette Coleman.

Free 1 (0:45) e Free 3 (6m) são – como está claro nos títulos – improvisações totalmente livres, de apelo mais sônico do que propriamente melódico, nas quais o líder Ballard esgrima suas baquetas e troços metálicios com as cordas de Loueke e os sopros de Zenón.

A temática mais melódica é cultivada pelos três grandes músicos a partir de The man I love (5m50), a imortal balada de Gershwin; de Mivakpola (4m30), do guitarrista do Benin, com Ballard usando apenas as mãos; e de Dal/A rhythm song(5m50), peça inspirada num dos duos para violinos de Bela Bartok.

Há ainda espaço para um obviamente metálico cover de Hanging tree (7m20), do grupo de rock Queens of the Stone Age, e uma dançante interpretação de El reparador de sueños (7m35), um bolero do cantor cubano Silvio Rodriguez.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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