Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Jazz

Trio The Bad Plus dá a sua versão da 'Sagração', a obra-prima de Stravinsky

Luiz Orlando Carneiro

Formado em 2000, o hiperativo trio The Bad Plus ficou famoso por cultivar uma espécie de vanguardismo pop, elevando em muitos decibeis o “volume” do típico trio de jazz acústico, e procurando conciliar o apelo rítmico dançante do rock com a estrutura harmônico-melódica da improvisação jazzística.

O pianista Ethan Iverson, o baterista Dave King e o baixista (acústico) Reid Anderson são excelentes instrumentistas, de sólida formação musical, e gravaram uma série muito bem sucedida de oito CDs, de These are the vistas (Columbia, 2003) aMade possible (eOne, 2012). E eles anunciam, para abril próximo, o lançamento pela renascida Okeh – etiqueta agora sob o pálio da Sony Masterwoks – de um álbum contendo a versão que fizeram, para o trio, da mais importante obra orquestral da música erudita escrita no século XX: A Sagração da primavera (Le sacre du printemps no original), de Igor Stravinsky (1882-1971).

O centenário da estreia, em Paris, da obra-prima de Stravinsky (The rite of Spring, em inglês), foi celebrado no ano passado.

Ethan Iverson, Dave King e Reid Anderson tocam em São Paulo na terça-feira (25/2)
Ethan Iverson, Dave King e Reid Anderson tocam em São Paulo na terça-feira (25/2)

Tudo indica que o Bad Plus vai tocar trechos dessa inusitada versão da Sagração, na próxima terça-feira (25/2), em apresentação única, no clube Bourbon Street, em São Paulo, como parte de uma turnê que incluiu a Argentina.

A jazzificação de fragmentos melódicos de Stravinsky não é novidade. Paul Desmond gostava de citar, em solos, trechos da suíte Petrouchka. O também saxofonista alto Ornette Coleman baseou na melancólica introdução da Sagração da primaveraa sua composição Sleep talking (8m45), constante do CD Sound grammar (2006).

No entanto, a interpretação que Iverson, King e Anderson deram ao Sacre – música de balé originalmente escrita para uma orquestra que inclui 44 instrumentos de sopro – abrange os 15 “movimentos” da obra de Stravinsky. E é bem possível que o trio tenha se baseado numa versão que o próprio compositor russo dela fez para dois pianos.

Mais do que isso, o trio Bad Plus “enfrenta” o Rite of spring (que será o título do CD da Okeh) com razoável swing, mas praticamente ao pé da letra, ou melhor, seguindo o curso melódico da opus magna da música erudita moderna. De cabo a rabo, como se pode escutar no registro (youtube) da estreia do Sacre tal como concebido pelo controvertido trio de jazz, em março de 2011, na Duke University.

O pianista Ethan Iverson e o baterista Dave King, em mais de uma oportunidade, sublinharam o fato de que a versão do trio, de cerca de 40 minutos – duração só um pouquinho mais longa do que os 35 minutos das principais gravações orquestrais e formais do Sacre – foi tomando corpo durante mais de 10 anos.

Vale a pena reproduzir aqui parte do comentário feito pelo crítico Peter Margasak (Chicago Reader) sobre a empreitada de Iverson-King-Anderson:

“Apesar de exigir uma certa dose de audácia um projeto tão ambicioso – a tradução de uma obra orquestral tão imediatamente reconhecível para um piano trio – a gravação da performance de estreia (aquela acima referida) é particularmente notável. Na primeira vez que a ouvi fui capaz de reconhecer certas passagens inesquecíveis, como a melodia inicial exposta pelo fagote. Mas, na minha segunda audição, eu estava menos preocupado em comparar a versão do Bad Plus com outras, e mais ocupado em me entregar à beleza de sua metamorfose. Há uma impulsão rítmica solta, mas relativamente implacável e constante – como no original – que requer constante atenção e cuidado, especialmente quando se trata de três executantes provendo todos os sons, durante cerca de 40 minutos. A obra exige um bocado de memorização de músicos que se acostumaram a improvisar”.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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