Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Jazz

Matt Wilson lança novo CD com John Medeski como convidado

Luiz Orlando Carneiro

Quarteto do baterista-compositor vira quinteto em Gathering call (Palmetto)

No início deste ano em que completa 50 anos de vida, o cultuado baterista-compositor Matt Wilson marca mais um gol de placa, com o lançamento do 11º disco na condição de líder. Trata-se de Gathering call (Palmetto), uma seleção de 13 faixas (nove delas de duração inferior a cinco minutos), interpretadas pelo seu quarteto (Jeff Lederer, saxes e clarinete; Kirk Knuffke, corneta; Chris Lightcap, baixo), mais o pianista John Medeski, na condição de atuante sideman, e não apenas como convidado especial.

Em 2012, Wilson editou, pelo mesmo selo, o também excelente CD An attitude for gratitude, à frente do seu outro quarteto, o Arts & Crafts, integrado por Terell Stafford (trompete), Gary Versace (piano, órgão, acordeão) e Martin Wind (baixo). A “atitude de gratidão” do título daquele álbum era referente à recuperação da mulher do baterista, Felícia, submetida a transplante de célula-tronco, em face de diagnóstico de leucemia (o casal tem uma filha e nada menos do que trigêmeos).

Quarteto do baterista-compositor vira quinteto em Gathering call (Palmetto)
Quarteto do baterista-compositor vira quinteto em Gathering call (Palmetto)

Agora, em Gathering call, a técnica e a criatividade de Matt Wilson – marcadas por contagiante alegria, inteligência e irreverência, in e out ao mesmo tempo – atingem uma espécie de ponto culminante de difícil superação, em termos de jazz como modo de expressão musical interativo de realização imediata, na base do “aqui e agora”. Segundo o líder, a sessão de gravação, de 29 de janeiro do ano passado, não levou mais do que “um dia de sete horas”.

As três primeiras faixas constituem um sample eloquente do conteúdo do disco: Main stem (2m45), tema de Duke Ellington da década de 1940, tratado em animado 2/4, com solos da insinuante corneta “neo-retrô” de Knuffke, do piano de Medeski e do sax tenor do injustamente subestimado Lederer; Some assembly required (4m40), bolação “ornetteana” do líder Wilson, com o cornetista recordando o saudoso pocket-trumpet de Don Cherry; Dancing waters (3m40), peça de mood pensativo, com realce para o baixo de Lightcap.

Das outras cinco peças assinadas por Matt Wilson, a mais excêntrica, mais free, é Gathering call, que dá título ao CD. O baterista praticamente sola o tempo todo (1m45), os sopros alimentam o “caos organizado” pelo líder em uníssonos e dissonâncias, e o piano de Medeski é pródigo em clustersHow ya going? (2m55) é menos “caótica”, com desenho melódico também inspirado na música de Ornette Coleman, e Lederer trocando o sax tenor pelo soprano.

Mas o “menu” do quarteto de Matt Wilson + John Medeski é bem eclético. Ellington volta a ser invocado em You dirty dog(5m20), tema de um LP (Decca) que o Duke gravou com Coleman Hawkins em 1962. Há dois temas de músicos mais ou menos esquecidos: Pumpkin's delight (8m32), de Charlie Rouse, que foi o sax tenor do quarteto de Thelonious Monk durante muitos anos; Barack Obama (4m35), escrito pelo baixista Butch Warren, que morreu aos 74 anos, sofrendo das faculdades mentais, em outubro do ano passado.

E o novo álbum de Matt Wilson contem até If I were a boy (4m20), de Beyoncé, com destaque para a corneta de Knuffke que, nesta peça, chega a lembrar o flugel maleável do venerável Clark Terry.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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