Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Jazz

Paquito D'Rivera divide Grammy com músicos brasileiros

Luiz Orlando Carneiro

No último domingo, foram anunciados - num megashow em Los Angeles, que incluiu ídolos da música popular como Paul McCartney e Stevie Wonder – os vencedores do Grammy 2013-2014 (o 56º da história) em cada uma das 82 categorias da competição. Como modo de expressão musical que é - e não como um tipo ou estilo de pop music - o jazz entra na promoção da Recording Academy em cinco das “divisões” dos melhores CDs da temporada, das quais as mais significativas referem-se, respectivamente, a pequenos conjuntos instrumentais, a orquestras (ou large ensembles) e a discos de “Latin jazz”.

Para este colunista, a premiação a merecer os aplausos mais calorosos ocorreu nesta última categoria. Foi a do álbum Song for Maura/Paquito D'Rivera and Trio Corrente (Sunnyside), gravado em São Paulo, em 2012, pelo magnífico Paquito D'Rivera (clarinete, sax alto) com o trio formado pelos brasileiríssimos Fábio Torres (piano, arranjos), Edu Ribeiro (bateria) e Paulo Paulleli (baixo).

CD Song for Maura foi gravado em São Paulo, com o Trio Corrente
CD Song for Maura foi gravado em São Paulo, com o Trio Corrente

O cubano D'Rivera, 65 anos, descontente com a ditadura de Fidel Castro – que não tratava nada bem os amantes do jazz (“música imperialista”) - bandeou-se para os Estados Unidos em 1981, tornou-se protegido do lendário Dizzy Gillespie, e construiu uma brilhante carreira que o situa hoje entre os maiores saxofonistas (e clarinetistas) do jazz contemporâneo. Com ou sem “sotaque” latino-americano.

Sobre este seu último álbum – agora detentor de um “gramofone de ouro” - Paquito escreveu:

“Minha relação com os brasileiros ou 'brasífilos' (há muitos pelo mundo) tem sido contínua e florescente, e um dos grupos musicais que mais me impressionam é o maravilhoso Trio Corrente, de São Paulo. Antes de ouvir seus discos, o empresário deles, Jacques Figueras, há alguns anos, propôs-me dividir o palco com eles. Eu respondi que já tivera experiências ruins com músicos desconhecidos, e que preferia viajar com o meu próprio grupo. Mas o meu pianista, o jovem e talentoso Alex Brown, depois de ouvir a conversa, disse-me: 'Paquito, ultimamente, a minha melhor referência em música brasileira contemporânea é o Trio Corrente. Eles são absolutamente tremendos!'. Assim é que liguei de volta para Figueras, o que resultou numa série de concertos internacionais e no presente CD, que é minha melhor homenagem ao Brasil e, ao mesmo tempo, uma canção de amor em memória da bela Maura, minha mãe”.

Song for Maura é um delicioso “prato” do que se convencionou chamar de Brazilian jazz. No entanto, o condimento verde-amarelo tem mais sabor de choro do que de samba. Em oito das 13 faixas, D'Rivera emprega o clarinete (instrumento típico do chorinho), e improvisa a partir de temas tão caros aos chorões como 1 x 0 (2m55), de Pixinguinha; Sonoroso (6m), de K-Ximbinho; Chorinho pra você (4m05), de Severino Araújo; Murmurando (4m50), de Fon-Fon; e Di menor (4m05), de Guinga.

As peças de ritmo mais efervescente do CD são Cebola no frevo (3m55), de Chico Pinheiro e do baterista Edu Ribeiro, eRecife blues (3m45), de Claudio Roditi. Nestas, o líder D'Rivera apresenta-se no sax alto, assim como na balada For Leny(3m45), de Daniel Freiberg, e em Céu e mar (4m50), tema bossa nova de Johny Alf.

O Trio Corrente – com realce para o contraponto incansável do pianista-arranjador Fabio Torres – é envolvente e impecável. E não se acanha, em nenhum momento, em face da fama de Paquito D'Rivera, elevado, em 2005, à condição de “jazz master” pela National Endowement for the Arts (NEA), a agência cultural independente do governo americano.

Os outros premiados

A propósito, os demais CDs premiados nas principais categorias jazzísticas pelos jurados do Grammy 2014 foram os seguintes:

“Melhor álbum de jazz instrumental”: Money jungle/Provocative in Blue (Concord Jazz), uma homenagem meio discursiva e meio pop ao cinquentenário do antológico LP Money jungle (Duke Ellington-Charles Mingus-Max Roach) bolada pela baterista-compositora Terri Lyne Carrington, em trio com Christian McBride (baixo) e Gerald Clayton (piano, teclados), mais algunsconvidados.

“Melhor álbum de orquestra ou large ensemble”: Night in Calisia (Summit), com o notável trompetista Randy Brecker à frente da Filarmônica de Kalisz (Polônia), em concerto gravado naquela cidade em 2010.

Tags: coluna, jazz, JB, luiz, música, orlando

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