Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Jazz

Mestre Benny Golson celebra 85 anos ainda na ativa

Luiz Orlando Carneiro

No filme O terminal (2004), de Steven Spielberg, Tom Hanks interpreta o papel de Viktor Navorski, cidadão da fictícia Krakozhia, que fica detido, durante meses, num terminal do Aeroporto John Kennedy, já que o seu visto de entrada deixara de valer, em face de uma revolução ocorrida no seu país durante a viagem para os Estados Unidos. A história de O terminal tem como leitmotiv a crescente dificuldade de intercomunicação num mundo cada vez mais globalizado, mas, também, a possibilidade de que a solidariedade humana surja quando e de onde menos se espera.

Nem todos, contudo, se lembram de que Viktor Navorski/Tom Hanks fizera a longa viagem a Nova York com o único objetivo de cumprir missão deixada pelo seu falecido pai, fanático por jazz, que conseguira colher, numa cópia da célebre fotografia A great day in Harlem (publicada pela revista Esquire, em 1958), os autógrafos de 56 dos 57 famosos músicos de jazz reunidos nas escadas de um prédio naquele bairro novaiorquino. Com exceção de um – o do saxofonista Benny Golson. No happy enddo filme, Navorski-Hanks tem a chance de ouvir o músico, ao vivo, num hotel, obter o seu autógrafo, pegar um táxi de volta ao aeroporto, e retornar à sua Krakozhia.

Saxofonista tenor é também um dos maiores compositores do jazz
Saxofonista tenor é também um dos maiores compositores do jazz

Pois bem. Dos 57 grandes jazzmen que posaram para aquela histórica foto, só três ainda estão vivos: Sonny Rollins (83 anos), Horace Silver (85) e Benny Golson (que chega aos 85 neste sábado, 25/1).

O sax tenor ao mesmo tempo incisivo e cantante de Golson – sonoramente derivado de Don Byas e Lucky Thompson, mas a serviço do fraseado do bebop – destacou-se na linha de frente dos Jazz Messengers do baterista Art Blakey (1958-59) e, logo depois, na liderança do aclamado Jazztet (1959-62), com o trompetista Art Farmer, mais os pianistas McCoy Tyner ou Cedar Walton e os trombonistas Curtis Fuller ou Tom McIntosh.

A fama do inspirado compositor consolidou-se nas gravações e concertos daquela lendária formação dos Messengers, que incluía também Lee Morgan e Bobby Timmons (piano), e do quinteto Jazztet. No fim dos anos 50, Benny Golson já se incluía entre os grandes autores de jazz standards, no mesmo nível de um Tadd Dameron, com pelo menos sete gemas preciosas:Whisper not, I remember CliffordAlong came BettyStablemates, Blues marchFive Spot after dark e Killer Joe.

Em 1996, o saxofonista-compositor foi incluído na prestigiosa lista de “Jazz masters” da National Edowment for the Arts (NEA), ao lado do trombonista J.J. Johnson (1924-2001) e do pianista Tommy Flanagan (1930-2001).

Da discografia mais recente desse mestre do jazz merece especial realce o CD New time, new 'tet/ Benny Golson's new Jazztet (Concord Jazz), gravação de 2008, na companhia de Eddie Henderson (trompete, flugelhorn), Steve Davis (trombone), Mike LeDonne (piano), Buster Williams (baixo) e Carl Allen (bateria). O vocalista Al Jarreau é ilustre convidado numa interpretação fascinante de Whisper not. Golson apresenta novas peças, como Uptown afterburn, e delicados arranjos da “Valsa do adeus” (L'adieu), de Chopin, e de um tema de Verdi (Verdi's voice).

Neste fim de semana, no charmoso Dizzy's Club, no Jazz at Lincoln Center, Nova York, Benny Golson celebra o 85º aniversário, no comando do seu atual quarteto (“Stories from the past”) com os fieis LeDonne, Buster Williams e Carl Allen.

God bless him!

Tags: Artigo, coluna, jazz, luiz, música, orlando

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