Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Jazz

Blue Note Records: 75 anos gravando a nata do jazz

Luiz Orlando Carneiro

Em janeiro de 1939, num estúdio alugado, o produtor Alfred Lion (1908-87) gravou, em discos de 78 r.p.m., 19 takes de Albert Ammons (1907-49) e Meade Lux Lewis (1905-64), mestres do boogie-woogie – aquele estilo pianístico bluesy, fortemente sincopado, surgido na chamada Harlem Renaissance. Estava fundada a Blue Note Records.

Na última quarta-feira (8/1), o 75º aniversário da mais famosa etiqueta especializada em jazz começou a ser comemorado com um concerto, no Town Hall de Nova York. Os principais solistas foram os pianistas Jason Moran e Robert Glasper, vanguardistas do teclado lançados pela Blue Note em 2000 e 2005, respectivamente, e hoje aplaudidos pela crítica e pelo público.

Aniversário do selo foi celebrado com concerto no Town Hall
Aniversário do selo foi celebrado com concerto no Town Hall

Inicialmente dedicado ao jazz tradicional, o selo branco e azul fez também registros antológicos de Sidney Bechet (sax soprano, clarinete), dos pianistas James P. Johnson, Pete Johnson e Earl Hines. Mas logo depois da 2ª Guerra Mundial, Lion e o seu sócio Francis Wolff (1908-1971) – que se tornaria um grande fotógrafo da jazz scene – levaram a sério o então revolucionário bebop. E foram responsáveis, em 1947, pelos primeiros discos de Thelonious Monk e da dupla Tadd Dameron-Fats Navarro, depois reeditados em LP e em CD, sob os títulos Genius of modern music The fabulous Fats Navarro, respectivamente. Sem falar na sessão memorável de 1949, de Bud Powell, pai do piano bop, com Sonny Rollins e Navarro, que gerou o álbum depois intitulado The amazing Bud Powell.

Nos anos 50, a BN consolidou-se como a gravadora independente mais influente do jazz, com o som de seus LPs assinado – a partir de 1953 - pelo lendário engenheiro Rudy Van Gelder.

Dentre os discos marcantes na história do jazz produzidos pelo icônico selo, naquela década, estão: Os três volumes de A night at Birdland (fevereiro de 1954), do quinteto de Art Blakey (antes de ser batizado como The Jazz Messengers), com Clifford Brown (trompete) e Horace Silver (piano); os raros registros do lendário pianista-compositor Herbie Nichols (1919-1963); The Jazz Messengers at the Cafe Bohemia (novembro de 1955); os álbuns em série de Jimmy Smith, o mais famoso dos organistas de jazz, com realce para The sermon (fevereiro de 1958); as “gemas” do quinteto soul bop de Horace Silver; os primeiros LPs de sucesso dos trompetistas Lee Morgan e Donald Byrd; Newk's time e A night at The Village Vanguard (3 volumes), gravações de 1957, e que firmaram de vez a reputação de Sonny Rollins como o “Saxophone colossus”.

Na década de 60, a BN atinge o seu zênite em matéria de hard bop, com o toque às vezes modal que Miles Davis e seus pupilos introduziram em Kind of Blue (Columbia, 1959). Alguns LPs da época fazem parte de respeitadas listas dos melhores de todos os tempos: Undercurrent (1962), do duo Bill Evans (piano)-Jim Hall (guitarra); Go!, do quarteto do sax tenor Dexter Gordon (1962); The sidewinder, de Lee Morgan (1964); Maiden voyage e Empyrean Islands (1964), joias da discografia do pianista-compositor Herbie Hancock; Juju (1964), Speak no evil (1965) e Adam's apple (1966), a trilogia com a qual o saxofonista-compositor Wayne Shorter iniciou a sua gloriosa carreira como líder. Sem esquecer os dois volumes que o pai dofree jazz, Ornette Coleman, gravou, em trio, no Golden Circle de Estocolmo (1965); as duas obras antológicas do revolucionário pianista Cecil Taylor: Unit structures e Conquistador! (1967); e Out to lunch (1964), do também vanguardista Eric Dolphy (sax alto e clarinete baixo).

Nos anos 70, a BN foi adquirida pela Liberty Records, que por sua vez foi sucedida pela United Artists e, em 1979, pela EMI. A BN sumiu do mapa por algum tempo, mas ressurgiu com lançamentos de grande repercussão do saxofonista Joe Henderson (The state of the tenor/Live at the Village Vanguard, 1985), do guitarrista Stanley Jordan (Magic touch, 1985) e do pianista francês Michel Petrucciani (Power of three, 1987, com os grandes Wayne Shorter e Jim Hall).

Para encurtar uma história sem precedente na história do jazz, basta relembrar que, nas últimas três décadas – embora mais aberta a estrelas do “pop jazz”, como Norah Jones – a BN tem sido a casa do grande saxofonista-compositor Joe Lovano. Já são 20 CDs, desde Landmarks (1990), Tenor legacy (1993) e Rush hour (1994) até Folk art (2008), Bird songs (2010) e Cross culture (2012). E também a casa de rising ou new stars que mantêm o jazz vivo e em renovação constante, como os já citados Jason Moran e Robert Glasper, além de Ambrose Akinmusire, Aaron Parks, o pianista cubano Fabian Almazán, mais os fieis Greg Osby e Stefon Harris.

A propósito, o agora octogenário Wayne Shorter retornou à Blue Note com o álbum Without a net, lançado no ano passado, e eleito o melhor CD jazzístico da temporada pela maioria das publicações especializadas (impressas e virtuais).

Tags: Artigo, coluna, jazz, luiz, música, orlando

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