Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Jazz

Fred Hersch e Julian Lage em vôo livre

Luiz Orlando Carneiro

Durante este ano que chega ao fim, tive a oportunidade de destacar e recomendar, nesta coluna semanal, nada menos do que sete edições de CDs excepcionais, gravados por músicos fora de série, no formato intimista e refinado do duo. Foram eles: Aurora (Clean Feed), Sara Serpa (vocal)-Ran Blake (piano), 12/1; Hagar's song (ECM), Charles Lloyd (sax tenor)-Jason Moran (piano), 9/3; Only many (CAM Jazz), Fred Hersch (piano)- Ralph Alessi (trompete), 1/6; George Shearing at home (Jazz Knight), registro póstumo do lendário pianista com Don Thompson (baixo), 3/8; O que será (ECM), Hamilton de Holanda (bandolim)-Stefano Bollani (piano), 24/8; Live at The Kitano (Victoria), Dick Hyman (piano)-Ken Peplowski (clarinete, sax tenor), 9/11; The roots of the blues (Sunnyside), Randy Weston (piano)-Billy Harper (sax tenor), no ltimo sábado (21/12).

E encerro o ano com a indicação de mais uma joia em forma de duo, novamente com o eminente pianista Fred Hersch, 58 anos, desta feita ao lado do guitarrista Julian Lage, ex-garoto prodígio, hoje respeitado mestre de apenas 25 anos. O álbum em questão é Free flying (Palmetto), e foi gravado em fevereiro deste ano, ao vivo, no bar do Hotel Kitano um dos melhores jazz places de Nova York, na Park Avenue, esquina da Rua 38.

Em 2005, no saudoso Festival Tudo é Jazz, em Ouro Preto, o garoto Julian Lage deixou o público atônito com o seu domínio do instrumento, tocando em duo com outro prodígio, o pianista Taylor Eigsti. Ele já tinha sido lançado pelo vibrafonista maior Gary Burton, em duas sessões para o selo Concord, quando tinha menos de 16 anos (Generations, 2003, com o pianista Makoto Ozone; Next generation, 2004, com o pianista russo Vadim Neselovski). Mais recentemente, o guitarrista tornou-se titular donew quartet de Burton (com Antonio Sanchez, bateria; Scott Colley, baixo), que produziu para a Mack Avenue os álbuns Common ground (2011) e Guided Tour(2013) este ltimo um dos cinco CDs de jazz indicados para o próximo Grammy.

Mas voltando ao recém-lançado Free flying, vamos partir do pressuposto de que Fred Hersch dispensa qualquer apresentação. E transcrever, apenas, um trecho dareview publicada na edição deste mês da revista Downbeat, assinada por Jon Garelick, que concedeu ao disco a cotação máxima de cinco estrelas (masterpiece) : “(...)temos um ábum de duo piano-guitarra com dois msicos profundamente líricos, dotados de habilidade técnica e imaginação imensas. Aqui, há muito pouco daquela fórmula típica solo-acompanhamento – e também nenhum deles se ocupa da sustentação rítmico-harmônica do outro. Ao contrário, há uma constante troca de ideias, algumas vezes expressa como contraponto clássico, e outras em contrastantes figuras rítmicas e melódicas”. Dos nove temas do álbum, sete são assinados por Hersch (a maioria já gravada em outros discos).Os dois outros são Monk's dream (6m20), de Thelonius Monk, é claro, e Beatrice (5m25), do saxofonista Sam Rivers.  Mas essas faixas registradas no Kitano são incríveis por que vão além da telepatia entre duas mentes brilhantes no comando de vinte dedos. A impressão que se tem – mais até do que no célebre Undercurrent (Blue Note, 1961), do duo Bill Evans-Jim Hall – é de um único virtuose interpretando peças escritas para piano e guitarra (violão) emoverdubbing.

A trama urdida pelo piano como extensão da guitarra (ou vice-versa), em contraponto, com muito swing e fraseado melódico que, às vezes, remete ao chorinho, é irresistível logo na primeira faixa, Song without words #4: duet (6m50). E também na faixa-título, Free flying (5m), dedicada por Hersch ao nosso Egberto Gismonti. A balada do CD é Heartland (4m55); Down home (5m50), de alma bluesy, foi escrita por Hersch em homenagem ao guitarrista Bill Frisell, seu velho amigo, com o qual gravou em duo, em 1998, o álbum Songs we know (Nonesuch); Stealthiness (5m15), em allegro vivace, por sua vez, é dedicada a outro mito da guitarra jazzística, Jim Hall (falecido, aliás, no ltimo dia 10, aos 83 anos).

OS TOP 40 CDs DA JAZZTIMES

A edição de janeiro-fevereiro da JazzTimes a revista mais referencial do jazz, juntamente com a Downbeat publica a costumeira lista dos “Top 50 CDs” do ano (discos lançados no período 6/11/2012-19/11/2013), com a média dos votos de seus críticos e colaboradores. E não deu outra. Assim como na eleição dos críticos e também dos leitores da DB, em agosto e dezembro últimos, respectivamente, o grande vencedor foi o álbum Without a net (Blue Note), do quarteto do saxofonista Wayne Shorter.

Os outros quatro CDs mais votados foram, pela ordem: Woman child (Mack Avenue), o lançamento de Cécile McLorin Salvant, ganhadora da Thelonious Monk Competition de 2010 e, sem dvida, a mais importante vocalista a surgir no planeta jazz nas ltimas duas décadas; Chants (ECM), do trio do pianista Craig Taborn; Hagar's dream (ECM), do duo Charles Lloyd (sax tenor)-Jason Moran (piano); Functional arrhythimias (Pi Records), do quinteto do sax alto Kenny Garrett. 

Tags: é jazz, em 2005, em ouro, festival, no, Preto, saudoso, tudo

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