Jornal do Brasil

Sábado, 19 de Abril de 2014

Jazz

Randy Weston, 87 anos, ressurge em duo com sax de Billy Harper

Luiz Orlando Carneiro

Sempre que ouço o pianista-compositor Randy Weston – hoje com 87 anos – lembro-me da síntese que o poeta Langston Hughes (1902-67) fez da sua arte: “Quando ele toca, uma combinação de força e gentileza, virilidade e veludo, emerge das teclas, num fluxo-refluxo sonoro tão natural como as ondas do mar”.

Inicialmente influenciado, ao mesmo tempo, pela “orquestralidade” de Duke Ellington e pela assimetria melódico-harmônica de Thelonious Monk, esse gigante do jazz - jazz master assim reconhecido pela National Endowment for the Arts – desenvolveu e aprofundou um casamento da mainstream moderna desse modo de expressão musical com a africanidade de suas raízes mais bluesy. Peças de sua autoria como Blue MosesAfrican sunrise e High fly tornaram-se referenciais e reverenciadas no repertório jazzístico. Álbuns como Uhuru Afrika (Roulette, 1960), The spirits of our ancestors (Antilles, 1991), Volcano blues(Antilles, 1993) e The storyteller (Motéma, 2009) são momentos sublimes de sua extensa discografia.

'Roots fo the blues' é o novo CD do legendário pianista
'Roots fo the blues' é o novo CD do legendário pianista

Em fevereiro último, o incansável Randy Weston gravou o CD The roots of the blues (Sunnyside), em duo, tête-à-tête, com o saxofonista tenor Billy Harper, 70 anos, vigoroso discípulo estilístico de John Coltrane e Archie Shepp, embora sem renegar o seu passado de hard bopper, membro que foi dos conjuntos dos bateristas Art Blakey e Max Roach.

No release de lançamento de The roots of the blues, já à venda nas lojas virtuais, lê-se o seguinte texto, que diz tudo: “Qualquer disco feito pelo legendário pianista Randy Weston é causa de celebração. Seu legado à música de jazz abrange mais de seis décadas, sempre em contato com os progenitores e inovadores da música. A pesquisa ancestral e a apropriação cultural às quais se dedicou fizeram dele um verdadeiro elo com as raízes do jazz. Ele criou uma profunda conexão mental, física e espiritual com a África”.

O novo álbum da Sunnyside Records é uma seleção de 14 faixas (totalizando 54 minutos), das quais oito têm duração inferior a quatro minutos. Dez temas são de autoria de Weston, a maioria bem conhecida de seus admiradores: Carnival (4m05),Blues to Senegal (4m30), Berkshire blues (5m40), Congolese children song (2m30), Blues to Africa (4m40), Cleanhead blues(2m35), Timbuktu (2m), Roots of the Nile (2m30), The healers (7m25) e African lady (2m40).

O duo – que age interativamente, em geral na base do call-and-response – interpreta ainda três standards de “repercussão geral”: Body and soul (3m20), How high the moon (3m50) e Take the A Train (4m30) – este o tema de Billy Strayhron que era o prefixo da orquestra de Duke Ellington. Há duas faixas em solo: Roots of the Nile (só Weston ao piano) e If one could only see (3m20), uma melodia pungente de Harper, que ele interpreta, quase ao pé da letra, com pequenas variações sônicas.

A última faixa (bonus track) é uma “miniatura” do original de African lady – que era de mais de 8 minutos - da acima citada suíte Uhuru Afrika, uma celebração do surgimento dos novos países africanos, e que reunia mais de 20 instrumentistas e poemas declamados de Langston Hughes. Aliás, as partes do CD Roots of the blues são joias em miniatura lavradas pela dupla Weston-Harper. Com exceção de The healers, a mais longa do disco, que é – segundo o pianista-compositor – uma homenagem “a nossos ancestrais que vieram da civilização do Vale do Nilo”. 

Tags: Artigo, coluna, jazz, luiz, música, orlando

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