Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Jazz

Denny Zeitlin, o Renaissance man do jazz

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro

No site de Denny Zeitlin, a epígrafe de sua biografia é a seguinte frase, extraída de um artigo publicado no Los Angeles Times: “Ele é o mais visível Renaissance man do mundo do jazz – ativo psiquiatra, professor de escola de medicina (Universidade da California, San Francisco), e músico de jazz de classe internacional”. Renaissance man é uma expressão usada nos Estados Unidos para qualificar alguém muito especial, com interesses intelectuais diversos, e de invejável conhecimento em diferentes áreas das artes e/ou das ciências. E o pianista Denny Zeitlin – que comemora 75 anos neste próximo dia 10 – é realmente uma dessas pessoas. Não fosse ele também ilustre enólogo, apaixonado pescador (fly fishing) e adepto de mountain biking.

Pianista-psiquiatra, aos 75 anos, ainda divide o tempo entre recitais e consultas
Pianista-psiquiatra, aos 75 anos, ainda divide o tempo entre recitais e consultas

Em 1964, quando se formou em medicina pela famosa Johns Hopkins University, em Maryland, o pianista já tinha sido “descoberto” por John Hammond – crítico de jazz, milionário, e todo-poderoso produtor da Columbia Records, descobridor também do lendário guitarrista Charlie Christian (1919-42). Naquele mesmo ano, Hammond produziu os dois primeiros LPs em trio de Zeitlin: Cathexis (Cecil McBee, baixo; Freddie Waits, bateria) e Carnival (Charlie Haden, baixo; Jerry Granelli, bateria). Em 1967, este último trio gravou Zeitgeist, que consolidou o prestígio do virtuose do teclado, então com 29 anos. Em 2009, a refinada Mosaic Records (na série Mosaic Select) lançou o álbum triplo Denny Zeitlin/ The Columbia Studio Trio Sessions, com a reedição daquelas faixas das sessões de 1964-67, mais 12 takes inéditos.

Na década de 70, quando já trocara a Costa Leste por San Francisco, o Dr. Zeitlin deixou-se fascinar pelos efeitos sônicos dos sintetizadores, e aderiu à voga fusionista jazz-rock promovida pelas bandas de Miles Davis (Bitches brew), Chick Corea (Return to forever) e Herbie Hancock (Head hunters).

O seu retorno ao som acústico-erudito do Steinway tem como principais registros os álbuns Tidal wave (Palo Alto, 1981-83), com John Abercrombie (guitarra) e Charlie Haden; o excepcional duo com Haden intitulado Time remembers one time once” (ECM, 1981), gravado ao vivo no saudoso clube Keystone Korner, de San Francisco; e Homecoming (Living Music, 1986), o primeiro inteiramente solo.

A obra mais recente de Zeitlin está bem documentada em quatro CDs editados pelo selo Sunnyside, a partir de Trio in concert – nove momentos do formidável trio com Matt Wilson (bateria) e Buster Williams (baixo), captados no Jazz Bakery, de Los Angeles (2006), e num concerto no Outpost Performance Space, Novo México (2004).

Os outros três discos, de piano solo, são os seguintes: Precipice (2008), recital no Ralston Hall de Santa Barbara, que contém vertiginosas variações em duas partes, de mais de 12 minutos, tendo como take off os temas de What's this thing called love e Fifth house (John Coltrane); Labyrinth (2008/2010), também ao vivo, com interpretações incríveis deFootprints (Wayne Shorter) e da labiríntica faixa-título, que o pianista descreve como “um pouquinho de improvisação multitimbral dentro do piano”; e Wherever you are/Midnight moods for solo piano (2011), o mais meditativo de todos os CDs, como está claro no título, embora não sejam soníferos, absolutamente, os preciosos achados melódico-harmônicos de Zeitlin ao examinar um baú de standards que contém, entre outras joias, Body and soulQuiet nights (Corcovado, de Tom Jobim), I hear a rhapsody e The meaning of the blues.

Denny Zeitlin é um dos mestres consumados do piano jazzístico, comparável – em termos de domínio do instrumento “orquestral” e de inventividade – a Keith Jarrett, Chick Corea, Herbie Hancock e Brad Mehldau. É tão íntimo da linguagem pianística erudita, de Chopin a Bartok, como do dialeto em que se expressaram Art Tatum, Bud Powell, Thelonious Monk, Bill Evans e Oscar Peterson. Sente-se tão à vontade numa sala de concertos como num pequeno clube de Greenwich Village.

Tags: Artigo, coluna, denny zeitlin, jazz, JB, luiz orlando

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