Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Jazz

Encontro memorável: o New York Voices e a WDR Big Band

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro

O Manhattan Transfer, formado nos anos 70, “estourou” em 1985 com o LP Vocalese (Atlantic), que recebeu 12 indicações para o Grammy, e ganhou os prêmios de melhor disco dejazz vocal e de melhor arranjo para vozes. Desde então, o quarteto formado por Cheryl Bentine, Tim Hauser, Alan Paul e Janis Siegel é considerado o melhor grupo no gênero desde o inesquecível trio (Dave) Lambert, (Jon) Hendricks & (Annie) Ross (1957-1962).

No entanto, o grupo vocal New York Voices – ladies Kim Nazarian e Lauren Kinhan mais os barbados Peter Eldridge e Darmon Meader (também saxofonista e arranjador) – não fica atrás do Manhattan Transfer, com o qual às vezes se apresenta em double bill. Em 1997, o NYV ganhou um Grammy juntamente com a Count Basie Orchestra na categoria “Best large jazz ensemble” pelo álbum gravado ao vivo, no ano anterior, na Manchester Craft Guild. Em 2003, o quarteto vocal arrebatou outro Grammy (“Best Latin jazz album”) com o CDBrazilian dreams (MCG), ao lado de um quinteto instrumental integrado pelos brasileiros Claudio Roditi (trompete), Hélio Alves (piano) e Paulo Braga (bateria).

Grupo vocal comemora 25 anos com CD gravado ao vivo na Alemanha
Grupo vocal comemora 25 anos com CD gravado ao vivo na Alemanha

Para comemorar o 25º aniversário do NYV, o selo Palmetto acaba de lançar Live with the WDR Big Band Cologne – um CD de 10 faixas (70 minutos de música) gravado ao vivo, em 2008, naquela cidade alemã, com a formidável orquestra lá sediada que tem como diretor-arranjador Michael Abene e solistas do quilate de Heiner Wilberny, Karolina Strassmayer (saxofones), e Ludwig Nuss (trombone).

O álbum começa com um tratamento orquestral reminiscente da era do Swing de Baby driver (6m45), tema de Paul Simon, que é também o autor da balada I do it for your love(5m15). Mas o blend e a interação das seções da big band, do conjunto vocal e dos solistas (vozes e sopros) são particularmente irresistíveis nas interpretações de Stolen moments(10m), a obra-prima de Oliver Nelson, e dos standards Love me or leave me (7m40) e Darn that dream (9m).

A melodia de Nelson é exposta com delicadeza pelo NYW e orquestra, até 1m58, quando Lauren Kinhan passa a liderar um mavioso scat singing até os 2m56, seguindo-se solos inspirados de Ludwig Nuss e de Heiner Wilberny (sax alto). Na movimentada Love me or leave me, brilham, nos solos, as vozes femininas (também em scat) e os trompetes da WDR. Em Darn that dream, que se inicia com solo de clarinete baixo de Jens Neufang, o destaque é para a improvisação onomatopeica de Darmon Meader (de 3m03 a 4m12) e o trompete de John Marshall.

Outros momentos primorosos do concerto NYV-WDR de 2008 estão em In the wee small hours of the morning (6m) – com realce para Kim Nazarian e o sax tenor de Paul Heller – e o tratamento vocal a capella, sem intervenção da big band, de Almost like beeing in love (4m) – com as vozes femininas como horns e as masculinas fazendo o “papel” de seção rítmica.

Como bem observou Kit O'Toole, no site Something Else!, o grupo NYV exige muita atenção dos ouvintes, pois suas harmonias aparentemente simples ao “ouvido nu” são bem mais sofisticadas do que parecem.

“A maioria das faixas de Live with the WDR Big Band - escreve ela - ultrapassa seis minutos, sendo que duas delas vão além de 10 minutos. Suas interpretações parecem mais meditações do que basicamente performances. Os membros do NYV exploram com vagar cada uma das melodias, alongam-se por sobre exuberantes harmonias, e expandemmoods e temas já presentes nas letras das canções. Com o apoio intrincado e preciso da Big Band, o grupo vocal convida a audiência a apreciar jazz num nível mais técnico do que simplesmente emocional”. 

Tags: Artigo, CD, coluna, jazz, JB, luiz orlando

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