Quest ressurge com temas marcantes da associação Miles Davis-Wayne Shorter
Lá se vão 30 anos, o saxofonista Dave Liebman e o pianista Richard Beirach fundaram o quarteto Quest (palavra inglesa para busca, aventura), inicialmente com George Mraz (baixo) e Al Foster (bateria), que foram logo sucedidos pelos não menos magistrais Ron McClure e Billy Hart. Esse grupo interativo - cultor de composições de natureza camerística, mas desenvolvidas de maneira bem free - foi muito aplaudido e ouvido pelos jazzófilos mais atentos com base, principalmente, em três álbuns: Quest II (Storyville, 1986), Natural selection(Evidence, 1988) e Of one mind (CMP, 1990).
Quando fundou o Quest, Liebman já tinha uma certa fama. Em 1972, aos 26 anos de idade, foi convocado por Miles Davis para a gravação da primeira sessão que gerou o LP fusionista On the corner (Columbia), ao lado dos eletrificados Chick Corea, Herbie Hancock e John McLaughlin. Mas, depois, o saxofonista (tenor e soprano) preferiu trilhar os caminhos vanguardistas mais especulativos abertos por John Coltrane e Ornette Coleman. E encontrou em Richard Beirach o seu partner ideal. Ambos eram novaiorquinos nascidos no Brooklyn, tinham quase a mesma idade e respeitável formação musical como compositores e instrumentistas.
Em 2000, Beirach mudou-se para Leipzig (Alemanha), onde até hoje leciona no Conservatório Felix Mendelsson. Liebman continuou sua fulgurante carreira, enriquecida nos últimos anos por dois excelentes registros: Turnaround: The music of Ornette Coleman (Jazzwerkstatt, 2009), em quarteto com Vic Juris (guitarra), Tony Marino (baixo) e Marko Marcinko (bateria); Contact:Five on one (Pirouet, 2010), com John Abercrombie (guitarra), Marc Copland (piano), Drew Gress (baixo) e Billy Hart (bateria). Em 2007, Liebman, Beirach, Ron McClure e Hart refizeram o Quest, e o reencontro foi documentado no CD Re-dial: Live in Hamburg (OutNote).

Em fevereiro de 2011, o grupo – a idade média de seus integrantes é agora de 68,5 anos – gravou para a etiqueta alemã Enja o CD Circular dreaming, recém-lançado e já disponível nas lojas virtuais. Das nove faixas do novo álbum, sete foram garimpadas nos célebres discos (Columbia) do quinteto de Miles Davis (1965-68) que tinha o saxofonista Wayne Shorter como diretor musical. Seis delas são assinadas por Shorter: Pinocchio (4m50) e Nefertiti (6m20), do LP Nefertiti (1967); Prince of darkness (6m25) e Vonetta (4m15), de Sorcerer(1967); Footprints (7m20), de Miles smiles (1966); Paraphernalia (9m50), de Miles in the sky (1968). O tema Hand jive (5m35) é de autoria de Tony Williams, baterista daquele quinteto, e apareceu também no antológico álbum Nefertiti. As duas peças restantes, a faixa-título Circular dreaming (7m35) e M.D.(7m20), são originais de Richie Beirach e Dave Liebman, respectivamente.
Nesta nova reunião, a temática Miles Davis-Wayne Shorter é transfigurada pela estética do quarteto, mais pantonal do que modal. Footprints e Paraphernalia são, a meu ver, os pontos culminantes da sessão, com o formidável sax tenor de Liebman – mais coltraneano do que shorteriano – pontificando em expressivos e longos solos, assim como o piano de Beirach – pleno de assimetrias rítmico-harmônicas. O clima é decididamente efervescente, graças também à hiperatividade do tandem Hart-McClure.
A faceta mais contemplativa do Quest é ressaltada em Prince of darkness (Liebman no sax soprano), na camerística M.D. (longa introdução “erudita” de Beirach, solo plangente do sax tenor), em Vonetta (sax tenor) e em Nefertiti (sax soprano).
O CD Circular dreaming foi lançado “oficialmente” no afamado clube Birdland, Nova York, na semana passada, com apresentações ao vivo do quarteto em cinco noites seguidas.
