Dois pianistas brasileiros, duas concepções musicais
Com atraso – mas antes que o ano termine – destaco o lançamento de dois discos assinados por pianistas brasileiros que fazem música de temática “nativa”, mas desenvolvida no espírito do jazz como “the sound of surprise”, para usar a feliz expressão de Whitney Balliett. Com mais ou menos “swing”, mais ou menos espaço para a improvisação, ambos são indicados para diletantes e praticantes de música instrumental.
Os álbuns são Constelação (Motéma), do Brazilian Trio de Hélio Alves (Duduka Da Fonseca, bateria; Nilson Matta, baixo), e Música nua (Tratore), de Ricardo Mac Cord – também compositor – em solo, duos, trios e quarteto (Cristiano Alves, clarinete; Marcus Ribeiro, violoncelo; Daniel Serale, vibrafone; Zé Luiz Maia, baixo; David Ganc ou Andrea Ernest, flauta).

Hélio Alves, 46 anos – dos quais mais de 20 nos Estados Unidos – integra, há muito tempo, a facção brasileira na “Primeira Liga” dos jazzmen novaiorquinos, juntamente com Duduka, Matta, o trompetista Claudio Roditi, o guitarrista Romero Lubambo e a pianista Eliane Elias.
No ano passado, o quinto CD de Alves como líder, Música (JLP) – com Antonio Sánchez (bateria) e Reuben Rogers (baixo) – foi muito bem recebido pela crítica, assim como ocorrera com Portrait in black an white (2004) e It's clear (2009), editados pelo selo Reservoir.
Constelação (referência ao Cruzeiro do Sul), gravado em novembro do ano passado, foi lançado em junho último, e mantém o mesmo nível de excelência dos discos anteriores, em matéria de samba jazz. São 50 minutos de música, divididos em 10 faixas. São elas: A faixa-título (6m20), de Alfredo Cardim; a romântica Bebe (5m45), de Alves; Embalo (3m55), do saudoso pianista Tenório Jr.; O cantador (4m35), de Dori Caymmi; LVM/Direto ao assunto (6m25), dois temas conjugados do baixista Matta; Isabella (4m10), de Duduka; Luiza (5m30), O boto (5m10) e a ritmicamente instigante Quebra pedra (4m20), todas de Tom Jobim, é claro. E tem ainda, para arrematar, uma recriação vibrante de Bolivia (5m10), tema do grande pianista Cedar Walton, com show especial de Duduka nos tambores e na prataria.

Por sua vez, o álbum do pianista-compositor Ricardo Mac Cord – que foi sideman de Angela Ro Ro, mas não esconde sua formação clássica – já tem no título, Música nua, o aviso de que dispensa adjetivação específica em matéria de gênero musical. No release do CD, lê-se apenas que “os temas recebem uma abordagem contemporânea com influências clássica e jazzística, que inclui improvisações”. E a informação de que Mac Cord foi o vencedor, entre 100 candidatos, da categoria composição (música instrumental) do Festival da Rádio MEC de 2010, com Choro 4 .
Aliás, esta composição, de linda e dolente melodia exposta em contraponto pelo trio piano-clarinete-cello, é a segunda (3m25) das 10 faixas do disco, que começa com Carnaval (3m15), um animado duo piano-flauta, formação que se repete em Serra da Estrela (4m40), também em tempo rápido, com referências ao “corridinho” português. As demais peças – todas compostas e arranjadas por Mac Cord – são: Elegia (4m), valsa lenta com a pungência melódica sublinhada pelo violoncelo; Um norte (3m45), também em duo com o cello, num clima bem percussivo esquentado pelo exímio pianista; Atlântica (4m10), em trio, com realce para a flauta de Andrea Ernst; Amarelinha (4m20), um tenso e harmonicamente denso dueto com o vibrafonista Serale; Choro 3 (3m40), chorinho que agradaria tanto a Pixinguinha como a Villa-Lobos, em interplay com o clarinetista Cristiano Alves; Montanha russa (4m15) e Noite branca (4m50), interpretações de mão cheia do pianista, com realce para o cello de Marcus Ribeiro na penúltima.
