Jazz made in Brooklyn
Todo mundo sabe que Nova York é, também, a capital mundial do jazz. Mas nem todos os jazzófilos em expedição à Big Apple atravessam a ponte sobre o East River que liga Manhattan ao Brooklyn para ver e ouvir quem está tocando, do lado de lá, no Barbès, no Sycamore ou no Sistas' Place. O que é bem compreensível, aliás, tendo em vista que nem sete ou oito noites seguidas serão suficientes para um aficionado se considerar totalmente satisfeito, mesmo depois de uma tournée pelos clubes da “ilha” que tenha incluído, necessariamente, o Village Vanguard, o Jazz Standard, o Dizzy's, o Birdland, o Smalls, o Blue Note (eventualmente), o bar do Kitano e o Cornelia.
Mas o boom jazzístico que emana do Brooklyn tem sido documentado pelo selo Brooklyn Jazz Underground (BJU), criado em 2008 por músicos que têm em comum uma estética especulativa pós-bop e o burgo onde vivem e trabalham. E o registro mais recente e significativo dessa tribo é o álbum A portrait of Brooklyn, lançado há três meses pelo quinteto cooperativo formado pelos seguintes instrumentistas-compositores: David Smith (trompete), canadense radicado em NYC desde 2000; Adam Kolker (saxes, clarinete baixo, flauta); Dan Pratt (sax tenor, clarinete, flauta); Anne Mette Iversen (baixo), dinamarquesa, novaiorquina há 15 anos, casada com o também baixista John Ginsburg; Rob Garcia (bateria).

O CD compõe-se de 10 faixas (quase uma hora de música). Cada um dos integrantes do quinteto escreveu duas peças, que têm em comum - não importa qual seja o andamento – a constante flutuação melódica por sobre harmonias difusas e a bateria latejante de Rob Garcia. Há bastante espaço para solos, diálogos e triálogos dos instrumentos de sopro, no mais alto nível técnico e criativo.
O trompetista David Smith já tinha chamado a atenção da crítica no álbum Flag day (Sunnyside), de 2008, na companhia luxuosa de Paul Motian (bateria), John Abercrombie (guitarra) e John Hebert (baixo). Em A portrait of Brooklyn, ele contribui com a agitada Starr St. (7m25) e a festiva The Hill (6m05) – esta última marcada por riffs que impelem um belo solo do trompetista, cujo requinte faz pensar em Ralph Alessi.
O ótimo saxofonista Adam Kolker é o autor da peça mais envolvente do disco: JV (5m10), um tema de melodia e découpage abertamente inspiradas em Ornette Coleman, assim como o solo no sax alto. O outro tema de Kolker é o meditativo Totem (6m25), com destaque para os solos do autor (no sax tenor), de Smith (no trompete com surdina) e da primorosa contrabaixista Anne Mette Iversen.
As composições de Anne Mette são Osgood in Brooklyn (6m40) e The cherry bees (6m30). Na primeira, baixo e bateria estabelecem logo um groove bem caliente, e o trompete e os saxes travam uma interessante conversação. Na segunda, Kolker e Dan Pratt usam suas flautas no arranjo, mas o solista em realce é David Smith.
Dan Pratt escreveu Buttermilk Channel (5m40) e a faixa de encerramento do CD, The cyclone (5m05), com andamento em velocidade que faz jus ao título, e solos de sax tenor, trompete e bateria.
Finalmente, ao baterista Rob Garcia deve ser creditado, em elevado percentual, o sucesso artístico de A portrait of Brooklyn. Além das peças de sua lavra - King (6m40), com solo de sax tenor, e 1898 (5m), com a voz dominante do clarinete – Garcia prova, mais uma vez, que é um dos mais dinâmicos e inventivos bateristas da cena novaiorquina, num nível de excelência comparável ao de um Matt Wilson. Ele já tinha encantado a crítica especializada em três álbuns anteriores como líder, sobretudo em The drop and the ocean (BJU, 2011), em quarteto com Noah Preminger (sax tenor), Dan Tepfer (piano) e John Hebert (baixo).
