Paul Bley: 80 anos de vida, 50 anos na vanguarda
Bley raramente afastou-se de situações experimentais
No seu até hoje referencial Jazz on CD (Londres, 1991), John Fordham assim abre o capítulo sobre um canadense-novaiorquino, cidadão do mundo, que ocupa um lugar ímpar nos anais do jazz contemporâneo: “O pianista Paul Bley nunca pareceu feliz exprimindo-se num idioma bem definido. Embora ele tivesse demonstrado, desde cedo, ter a técnica e o domínio do material jazzístico para ser um músico straight-ahead (ele herdou o baterista e o baixista de Oscar Peterson quando este companheiro e compatriota foi para os Estados Unidos, em 1949) Bley raramente afastou-se de situações experimentais. Foi possivelmente sua tendência exploratória desenvolvida de uma maneira mais introvertida do que feroz que o fez algo menos do que uma cause célebre nos levantes vanguardistas dos anos 60”.
Paul Bley completa, neste sábado, 80 anos de vida, longe dos festivais e clubes, dedicado apenas, aparentemente, a raros concertos como solista em salas europeias. O último CD da sua discografia – o sexto para o refinado selo canadense JustinTime, lançado em 2008 - chama-se About time, e é uma improvisação solitária dividida em duas longas partes: a faixa-título (33m30), e Pent up house (10m25), a partir do irresistível tema de Sonny Rollins. Como está muito bem anotado na apresentação do disco, a música de Bley não pode “ser descrita em termos de composições, estilos, motivos ou estruturas rítmicas”, já que “contém todos esses elementos numa estrutura constantemente envolvente, na qual cada ideia gera cinco novas ideias”. Uma abertura harmonicamente bluesy pode ter um desenvolvimento politonal ou um tratamento totalmente free. E vice-versa.

E por falar em free jazz, lembre-se que Paul Bley era o pianista e líder do quinteto registrado ao vivo, pelo seu selo IAI, em outubro de 1958, no Hillcrest Club de Los Angeles, com Ornette Coleman, Don Cherry, Charlie Haden e Billy Higgins. Ou seja, ele foi responsável por uma prévia dos três LPs do quarteto de Ornette gravados no ano seguinte, e que detonariam para valer a onda vanguardista da década de 60: Tomorrow is the question, The shape of jazz to come e Change of the century.
E também não se pode esquecer que o pianista - que lançou como compositora sua primeira mulher, Karen Borg, a hoje consagrada Carla Bley – integrava, com Steve Swallow (baixo), o trio camerístico do clarinetista-saxofonista Jimmy Giuffre (1921-2008) que gravou três álbuns antológicos no período 1961-62: Fusion e Thesis, para a Verve, e Free fall, para a Columbia.
Da discografia de Paul Bley daquela época são ainda tidos como milestones dois álbuns (vinis de 10 polegadas) editados pela ESP-Disk em 1964 e 1965, respectivamente: Barrage, com composições da então mulher Carla (Ictus, And now the queen, Working woman), na companhia de Marshall Allen (sax alto), Dewey Johnson (trompete) e Milford Graves (percussão); Closer, em trio com Steve Swallow e Barry Altschul (percussão), contendo também peças de Carla, entre elas a marcante Ida Lupino.
A obra desse pianista fora de série está igualmente bem documentada no sofisticado catálogo da ECM Records, de Manfred Eicher. São ao todo 10 discos, desde 1970, dentre os quais destaco: In the evenings out there (1991), quarteto com John Surman (sax barítono e clarone), Gary Peacock (baixo) e Tony Oxley (bateria); Not two, not one (1998), em trio com Peacock e Paul Motian (bateria); In Mondsee (2001), solo. O selo dinamarquês SteepleChase, por sua vez, editou mais de uma dezena de sessões de Paul Bley como líder ou co-líder, inclusive o precioso CD Diane, um duo com Chet Baker gravado em Copenhague em 1985, três anos antes da morte do trompetista, em Amsterdã, aos 59 anos.
No site do pianista, à guisa de epígrafe, lê-se o seguinte trecho por ele pinçado de uma feliz apreciação publicada por Ben Ratliff, no New York Times (21/6/2006): “Num balanço final, a influência de Paul Bley nos últimos 50 anos de jazz – e ela continua – será enorme. Profundamente original e esteticamente agressivo, Bley encontrou, há muito tempo, um caminho para expressar seus pensamentos longos, elegantes e volumosos de um modo que implica completa autonomia (…). A música flui numa mistura de conhecimento histórico e de seus próprios princípios invioláveis”.
