Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Jazz

Donald Vega: Da Nicarágua a Nova York, via Los Angeles

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro

Donald Vega nasceu, há 38 anos, na Nicarágua. Estudou piano desde cedo, mas o seu talento e a sua técnica foram desenvolvidos nos Estados Unidos, inicialmente em Los Angeles, para onde sua mãe o levou quando ele tinha 14 anos. Formou-se na University of Southern California, tornou-se protegido do baterista-professor Billy Higgins, e depois, em 2005, mandou-se para Nova York, com uma bolsa para outro mestrado na Manhattan School of Music. Fez sua “pós-graduação” na Juillard, onde foi aluno do notável pianista Kenny Barron. No início deste ano, sucedeu o não menos eminente Mulgrew Miller no trio de Ron Carter — um dos maiores baixistas de jazz de todos os tempos.

Com um tal currículo — e já incorporado à cena jazzística nova-iorquina não, apenas, como especialista no chamado Latin jazz — entende-se porque Donald Vega conseguiu recrutar Christian McBride (baixo) e Lewis Nash (bateria) para o trio básico de seu segundo disco na condição de líder, Spiritual nature (Resonance). O álbum, gravado em janeiro último, tem ainda como convidados Anthony Wilson (guitarra), Christian Howes (violino), Bobby Sheppard (sax tenor), Gilbert Castellanos (trompete) e Bob Chesney (trombone).

Nova estrela do piano lança ‘Spiritual nature’, com Christian McBride e Lewis Nash na seção rítmica
Nova estrela do piano lança ‘Spiritual nature’, com Christian McBride e Lewis Nash na seção rítmica

Das 12 faixas do CD, quatro são originais de Vega: Scorpion (7m), em quinteto, no estilo hard bop dos Jazz Messengers de Art Blakey, com bom espaço para solos do trompetista (que reverencia Lee Morgan), de Sheppard e até do baterista Nash; a faixa-título (5m50), numa batida meio bossa nova, também em quinteto (com trombone em vez de trompete), e destaque para o solo cool do sax tenor e o piano elegante de Vega, que fala de Hank Jones e Tommy Flanagan como seus herois; Child’s play (3m40), peça bem suave que o líder divide com o violino de Howes, o beat levemente mantido pelas mãos de Nash (sem baquetas) no snare drum; a também lírica Contemplation (4m20), em quarteto (mas com piano elétrico), com a coloração da impecável guitarra de Anthony Davis.

As demais faixas do CD Spiritual Nature foram selecionadas pelo pianista rising star (com a colaboração de George Klabin, que fundou a Resonance Records em 2008) para ressaltar a sua versatilidade no tratamento de matéria-prima de apelo mais ou menos popular, em tempos e tramas harmônicas variadas. Nesse sentido, merecem especial atenção duas peças do veterano pianista jamaicano Monty Alexander: a meditativa The river (6m40), interpretada em quarteto com a adição de Christian Howes, o mais interessante violinista de jazz da geração nascida na década de 70; Accompong (5m), de clima funky acentuado pela seção rítimica, e desenvolvida em alta velocidade pelo pianista — lembrando McCoy Tyner — com intervenções também vertiginosas do guitarrista Wilson.

O camaleônico Vega arranja e reinterpreta, em conluio com Howes e McBride, em tempo valsado, o Etude Opus 8, nº 2 (8m15) de Scriabin, que na partitura original tem a anotação A capriccio, con forza. E, logo em seguida, investiga, solo, em raras harmonias, a melodia dorida de Falando de amor (4m05), de Tom Jobim.

Há ainda First trip (7m10), de Ron Carter, em quarteto com o guitarrista Davis; Future child (6m35), composição melancólica do inesquecível baixista Niels-Henning Orsted-Pedersen (1946-2005); You never tell me anything (5m20), do pianista Makoto Ozone; e, também em trio, I remember Clifford (8m15), a bela balada de Benny Golson em memória de Clifford Brown (1930-1956).

Tags: Bolsa, jazz, NICARÁGUA, piano, spiritual nature, vega

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