Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Jazz

Jazz ‘made in Chicago’: Vinho velho, garrafa nova

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro

A cena jazzística de Chicago foi sempre ebuliente, desde os Roaring Twenties. Foi lá, entre 1925 e 1929, que Louis Armstrong criou e gravou as primeiras obras referenciais do jazz clássico à frente de seus conjuntos Hot Five e Hot Seven. Foi lá que começou a brilhar — ao lado de Satchmo ou na orquestra do Grande Terrace — o pai do piano jazzístico, Earl Fatha Hines. Na mesma época, lá tocaram e gravaram o legendário Bix Beiderbecke e a gang da Austin High School, integrada pelos eminentes Bud Freeman, Frank Teschemacher e Eddie Condon. 

No planeta jazz, a Windy City é também sinônimo de vanguarda, de new trend, desde a criação, em 1965, da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), da qual emergiu o quinteto Art Ensemble of Chicago, de Lester Bowie, Joseph Jarman & Cia., com aquela polifonia politonal entremeada de solos e intervenções totalmente free. É também a terra de figuras cult do jazz post-bop como os saxofonistas Fred Anderson (1929-2010) e Von Freeman (1923-2012).

Cornetista Josh Berman lança ‘There now’ à frente de sua ‘gang’
Cornetista Josh Berman lança ‘There now’ à frente de sua ‘gang’

Toda essa história e toda essa cultura estão bem vivas na mente e na arte do cornetista Josh Berman, 40 anos, figura de destaque no underground musical da cidade. Ele vem de lançar o seu segundo disco como líder para a Delmark — etiqueta que há quase 60 anos registra o melhor do jazz e do blues made in Chicago. O primeiro, de 2009, foi Old Idea, em quinteto com Keefe Jackson (sax tenor) e Jason Adasiewicz (vibrafone), mais baixo e bateria.

O novo CD, intitulado There now/ Josh Berman and his gang contém oito peças — das quais três originais do líder e temas tão antigos como I’ve found a new baby — interpretadas ou radicalmente recriadas de maneira pós-moderna por um oiteto também integrado por Jackson e Adasiewicz, mais os excelentes Jeb Bishop (trombone), Guillermo Gregorio (clarinete), Jason Stein (clarinete baixo), Joshua Adams (baixo) e Frank Rosaly (bateria). 

Sugar (5m05) e Liza (8m20), dois temas que o guitarrista-líder Eddie Condon (1905-1973) popularizou na década de 20, ilustram muito bem o amálgama da improvisação coletiva ingênua do Dixieland, decididamente retrô, e da pantonalidade da Art Ensemble of Chicago (com direito a um solo à la Gene Krupa do grande Rosaly). Love is just around the corner (7m05) — canção de 1934 que foi do repertório de Bing Crosby, Mel Tormé e do pianista George Shearing — abre o CD com Stein improvisando no clarone à la Eric Dolphy. Em Jada (6m25), clarinete e trombone fazem um par bem romântico. Mas as três composições de Berman, compartilhadas com a sua gang, são decididamente free jazz, principalmente a tempestuosa Cloudy (6m05) e Mobile and blues (7m15).

A corneta é um instrumento praticamente igual ao trompete, mas produz um som menos estridente, mais macio. Era o horn do Louis Armstrong dos Hot Five e dos Hot Seven, e também de Bix Beiderbecke. Soprada por Josh Berman, a corneta ganha uma tal maleabilidade que demonstra a compatibilidade das estéticas tão diversas — no tempo e no espaço — de Bix, Satchmo, Miles Davis, Don Cherry, Bill Dixon e Lester Bowie. O sax tenor de Keefe Jackson, o trombone de Jeb Bishop e o vibrafone de Adasiewicz são imprescindíveis para o sucesso de There now — um álbum mais indicado para iniciados do que para newcomers.

Tags: berman, CD, ebuliente, gang, jazz, Vinho

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