Eliane Elias volta a lançar CD de jazz propriamente dito
Há quatro anos, a pianista Eliane Elias produziu com o marido Marc Johnson — refinado baixista que integrou o derradeiro trio de Bill Evans (1978-80) — o CD Something for you: Eliane Elias sings and plays Bill Evans. Escrevi então, nesta coluna, que “o fato de o verbo cantar estar antes de tocar no título do álbum já é um recurso apelativo, até porque há mais faixas puramente instrumentais (10 em 17) do que com a voz doce — bonitinha, mas não extraordinária — da cantora, mais pop do que jazzy”.
Nesta última década, essa paulista de 51 anos — dos quais 30 vividos em Nova York — fez uma clara opção comercial, dando ênfase à sua carreira de singer de smooth jazz, em detrimento de sua arte puramente pianística, como atestam os discos Dreamer (Blue Note, 2004), Kissed by nature (RCA, 2009) e Light my fire (Concord Picante, 2011).

Os críticos e jazzófilos mais exigentes estavam à espera de um novo registro puramente instrumental do alto nível de Everything I love (Blue Note, 1999), em trio com Johnson e Jack DeJohnette (bateria), e de Shades of jade (ECM, 2004), novamente com o marido e os eminentes Joe Lovano (sax tenor), John Scofield (guitarra) e Joey Baron (bateria).
Pois esse CD, gravado em fevereiro de 2010, acaba de ser lançado por Manfred Eicher, dono, cabeça e alma da ECM. Trata-se de Swept away, título de uma das cinco peças compostas por Eliane Elias para o disco, que se somam a outras duas que ela escreveu com o marido (Sirens of Titan e Inside her old music box), a três originais do baixista colíder (When the sun comes up, Midnight blue e Foujita), e ao tema folclórico Shenandoah, interpretado em solo por Marc Johnson.
O primoroso trio Elias-Johnson-Baron reúne-se novamente, e Joe Lovano forma um quarteto para a interpretação de quatro faixas: It’s time (5m50), tema de Eliane dedicado ao inesquecível sax tenor Michael Brecker (1949-2007), seu primeiro patrão, na década de 80, no grupo Steps Ahead; as etéreas When the sun... (6m35) e Midnight blue (6m); a animada e envolvente Sirens of Titan (5m50), impulsionada pelas acentuações indispensáveis de Joey Baron.
Assinadas pela pianista, One thousand and one nights (8m15) e B is for butterfly (8m) são, a meu ver, as faixas em trio mais atraentes do álbum, em termos de emoção e execução técnica. A primeira — como fica claro no título (Mil e uma noites) — tem um colorido melódico oriental; a segunda lembra os momentos mais alegres e interativos do trio de Keith Jarrett.
A atmosfera geral do novo CD é do jazz mais contemplativo que caracteriza a etiqueta ECM. Eliane e Marc Johnson admitem que o ambiente em que foram escritas as peças de Swept away — a casa em que moram nos Hamptons, o balneário chique de Long Island, perto de Nova York — influenciou decididamente o seu mood. O baixista comenta: “Existe lá, definitivamente, um sentimento de quietude e de espaço que nos inspira. A natureza está mais próxima, e podemos realmente ver a mudança de estações. Acho que se pode ouvir isso no lirismo e na sinceridade da música (do álbum)”.
